Líderes religiosos criticam banalização da religião no Egito

O hábito de escutar ininterruptamente gravações de versos do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos, vem se tornando tão comum em cidades egípcias que recebeu críticas até de líderes religiosos. Eles estariam combatendo o que percebem ser uma forma de banalização da religião, citando um verso do Corão que estipula que o ouvinte deve se manter em silêncio e meditando toda vez que ouvir as palavras do livro.

BBC Brasil |

"Levantamos a questão várias vezes durante nossos serviços religiosos, mas as pessoas continuam fazendo isso", diz Sair Nour Mohamed, imã de uma mesquita no Cairo.

"Acredito que isso seja decorrente de seus estados psicológicos", diz ele.

24 horas por dia
Alguns analistas afirmam que o hábito é o resultado de insegurança dos egípcios com aspectos cotidianos de suas vidas.

O taxista Ahmed diz que se sente protegido quando escuta sem parar os versos sagrados, gravados em uma fita cassete, enquanto dirige seu carro pelo caótico trânsito do Cairo.

"Tive quatro acidentes no ano passado, mas poderia ter tido mais se não fosse o Corão", diz ele.

Além de servir para proteção pessoal, escutar os versos poderia ser também um estímulo para se seguir um estilo de vida mais conservador na sociedade egípcia.

Um café no centro do Cairo, por exemplo, passou a sintonizar continuamente um canal de TV que transmite as passagens do livro.

O local era considerado um ponto de encontro de jovens casais, mas segundo um empregado do local, a presença ao fundo dos versos "lembra a eles que o que estão fazendo é religiosamente errado".

Caminhando pelas ruas da capital egípcia, é difícil não escutar os versos, sejam saídos dos alto-falantes de mesquitas que chamam os fiéis para rezar, de restaurantes, veículos ou mesmo de celulares. Baixar versos e os usar como toque de chamada nos telefones é prática bastante comum.

"Você não pode escutar isso 24 horas por dia e garantir que está prestando atenção", diz a tradutora Maha Amar.

Fenômeno
O hábito seria mais um sinal, ao lado do véu para as mulheres e da zebiba (hematoma na testa, sinal de que a pessoa tocou o chão várias vezes ao rezar) do aumento da religiosidade pelo qual a sociedade egípcia está passando.

Em junho, um importante clérigo chegou a pedir para que as pessoas não usem as obrigações religiosas como desculpa para a falta de produtividade.

"O fenômeno do aumento da religiosidade começou durante o governo de Anwar Sadat e aumentou durante o de Mubarak (em 1981), já que os dois regimes permitiram que a religião se tornasse a única esfera aberta para expressão", afirma o analista Amr Chobaki, especializado na Irmandade Muçulmana, o maior grupo de oposição do país.

"Todos os outros campos estão fechados. Não existem partidos políticos reais ou sindicatos, e as organizações não-governamentais são constantemente ameaçadas", afirma ele.

Para o analista, o fenômeno é superficial, não representando um aumento real de valores espirituais.

"É apenas uma sociedade conservadora que está se tornando cada vez mais intolerante para com as outras religiões e muçulmanos mais liberais", diz ele.

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