Líderes do G20 prometem agir apesar de divisões

Por Glenn Sommerville WASHINGTON (Reuters) - Líderes mundiais reunidos em Washington na sexta-feira para buscar uma forma de blindar a economia global contra futuras crises prometeram cooperação, apesar da evidente divisão entre eles a respeito da regulação financeira.

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Sem a participação do presidente-eleito dos EUA, Barack Obama, que toma posse 20 de janeiro, há pouca expectativa de resultados muito concretos, mas espera-se que este seja o primeiro de uma série de encontros voltados para promover a retomada do crescimento global.

"Precisamos concordar com a importância da coordenação da política monetária e fiscal", disse o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, a caminho da cúpula do G20, que começa com um jantar dos chefes de governo na Casa Branca na sexta-feira.

Os ministros das Finanças jantam separadamente, no Departamento do Tesouro, e no sábado ambos os grupos se juntam para cinco horas de discussões. Um comunicado deve ser divulgado durante a tarde.

Líderes europeus chegaram a Washington dizendo que a crise financeira -- a pior desde a Grande Depressão, na década de 1930 -- demonstra a necessidade de um conjunto mais rígido de regras para o mercado. Os 15 países da zona do euro estão oficialmente em recessão, e os EUA vão no mesmo caminho.

Estados Unidos e Canadá, por outro lado, pregam reformas moderadas e descartam a criação de uma agência reguladora internacional para o setor financeiro.

"Não acho que as grandes economias do mundo irão consentir num controle externo sobre os seus sistemas regulatórios", disse a jornalistas o primeiro-ministro canadense, Stephen Harper, em Winnipeg. "A governança compulsória não é realista, nunca será aceita."

BUSH: REFORMAS LIMITADAS

Antes da reunião, o anfitrião George W. Bush defendeu reformas limitadas para preservar o livre-mercado, em vez das rígidas regulamentações propostas por alguns países europeus para controlar os excessos do capitalismo.

O Japão também rejeitou a regulamentação global. "Achamos que o princípio fundamental deve ser de que os fluxos de capital baseados no livre-mercado devam continuar servindo como fundamento do sistema global", disse Kazuo Kodama, porta-voz da chancelaria japonesa.

Em Berlim, antes de embarcar, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, defendeu perante jornalistas a criação de algum tipo de marco regulatório para evitar futuras crises.

"O governo fará de tudo para garantir que haverá mais regras para prevenir a recorrência de tal situação", prometeu ela, referindo-se ao colapso no mercado global de crédito, iniciado com a crise das hipotecas de risco no mercado norte-americano.

O Fundo Monetário Internacional e o Fórum de Estabilidade Financeira, que reúne autoridades financeiras de países importantes, concordaram com um plano regulatório em três camadas, que manteria o papel do FMI na supervisão financeira global, reforçaria o papel do FEF na indicação de padrões para a supervisão e manteria as autoridades nacionais a cargo da sua implementação.

Em entrevista à TV CNBC, o secretário de Tesouro dos EUA, Henry Paulson, disse que seu país "de muitas maneiras se humilhou como nação com alguns dos problemas" ocorridos ali.

Novos dados dos EUA e da Europa mostram a gravidade da crise a ser discutida na cúpula.

A zona do euro mergulhou na recessão no terceiro trimestre, e o varejo norte-americano sofreu uma queda recorde em outubro. Japão e Grã-Bretanha também estão à beira da recessão, enquanto a China desacelerou fortemente seu crescimento, contribuindo com a instabilidade global.

As Bolsas dos EUA registraram nova baixa acentuada na sexta-feira, devido à preocupação com os novos números.

MANTEGA PEDE PRESSA

O ministro Fazenda, Guido Mantega, disse após uma reunião em Washington com primeiros-ministros e ministros de Economia de Grã- Bretanha, Japão e Austrália que há urgência na aprovação de uma reforma regulatória e na realização de gastos públicos coordenados entre diversos países.

"Retomar a confiança é algo que exige regras claras, mais transparência", disse Mantega. "Se não agirmos rapidamente, corremos o risco de cair numa depressão."

Em Frankfurt, o presidente do Fed (Banco Central dos EUA), Ben Bernanke, disse que BCs do mundo todo precisam preparar mais medidas contra a restrição do crédito.

A cúpula de Washington reúne os líderes de 19 países e da União Européia sob o rótulo do G20. O grupo inclui tradicionais potências industrializadas, habitualmente reunidas sob o G7, e também países emergentes, como China, Brasil, Índia, Rússia e África do Sul. Analistas dizem que essa configuração reflete melhor a distribuição de poder global no futuro.

Os emergentes esperam chegar a esta cúpula com mais voz, mas isso exigiria que os países ricos abrissem mão de parte de seu poder. Um argumento decisivo pode ser o capital financeiro em mãos de países como China e Arábia Saudita, que parecem dispostos a auxiliar outras nações emergentes por intermédio de instituições como o FMI.

Na quinta-feira, o governo japonês ofereceu um empréstimo de até 100 bilhões de dólares ao FMI. Não está claro se outros países farão o mesmo.

(Reportagem de Glenn Somerville)

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