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Líderes do Congo e de Ruanda concordam em discutir crise

Os presidentes de Ruanda e da República Democrática do Congo concordaram nesta sexta-feira em se encontrarem para tentar resolver a crise entre o exército congolês e as tropas rebeldes do general Laurent Nkunda, no leste do Congo. O encontro entre o ruandês Paul Kagame e o congolês Joseph Kabila foi acertado depois de dois dias de negociações com o comissário de Desenvolvimento e Ajuda Humanitária da União Européia, Louis Michel.

BBC Brasil |

 

As negociações, que vão contar com a presença de observadores das Nações Unidas e da União Africana, devem acontecer em Nairóbi, capital do Quênia, em uma data ainda não anunciada.

Um dos maiores desafios é tentar convencer o general Nkunda, chefe das milícias rebeldes, a se retirar das posições que conquistou recentemente.

O general, no entanto, ainda não foi convidado para o encontro, segundo informou Louis Michel à BBC.

Desde que foi declarado um cessar-fogo, na última quarta-feira, os soldados de Nkunda estão estacionados a 15 quilômetros da cidade de Goma, no leste do país, mas o general ameaçou invadir a cidade a menos que as tropas de paz da ONU garantam a manutenção da trégua.

Milhares de pessoas foram obrigadas a deixar a cidade para fugir dos conflitos.

O governo do Congo acusa Ruanda de apoiar o general Nkunda com tropas e artilharia pesada.

Ruanda nega essas acusações, apesar de ter invadido o Congo duas vezes nos últimos anos.

Neste sábado, o ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner, e o chanceler britânico, David Miliband, devem se encontrar com os presidentes do Congo e de Ruanda e visitar a cidade de Goma.


Milhares de pessoas deixam suas casas devido aos conflitos no país / AP


Campos incendiados
Apesar do cessar-fogo declarado por Nkunda na quarta-feira, situação no leste do Congo ainda é muito tensa.

Nesta sexta-feira, a Organização das Nações Unidas (ONU) disse ter relatos confiáveis de que campos que abrigavam cerca de 50 mil deslocados no leste da República Democrática do Congo foram destruídos.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) disse estar preocupado com relatos sobre a destruição dos campos de Rutshuru, localizados a 90 quilômetros ao norte de Goma, capital da província de Kivu do Norte.

Segundo relatos, os campos foram evacuados à força, saqueados e depois incendiados.

"Havia cerca de 50 mil pessoas nesses campos", disse Ron Redmond, porta-voz do Acnur. "Não sabemos onde elas podem estar agora, estamos com medo de que simplesmente tenham se dispersado na floresta."
Deslocados
Calcula-se que 250 mil pessoas na região leste do Congo tenham fugido dos confrontos entre tropas do governo e rebeldes leais ao general Laurent Nkunda.

De acordo com o correspondente da BBC em Goma, Peter Greste, a falta de comida e de água está levando milhares de refugiados a deixar a cidade em direção a Kibati, a cerca de 12 quilômetros ao norte.

Segundo Greste, a estrada que sai de Goma está tomada por uma multidão de famílias que carregam todos os seus pertences nas costas.

"Toda a população de Goma e também das áreas em torno da cidade está extremamente insegura", disse Marcal Izard, porta-voz da Cruz Vermelha, à BBC.

Um agente humanitário congolês que trabalha em Goma, Godefroid Marhenge, contou à BBC que alguns dos deslocados "precisam desesperadamente de ajuda humanitária".

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, já havia afirmado que a violência está criando uma crise de "dimensões catastróficas" no país.

Apesar de o general Nkunda ter dito na quinta-feira que abriria um "corredor humanitário" para que os refugiados em Goma pudessem voltar para suas casas, o correspondente da BBC afirma que muitas pessoas foram obrigadas a voltar para a cidade por medo de serem alvo de tiros.

De acordo com Greste, aqueles que conseguiram chegar a Kibati afirmaram ter mais chances de obter água e comida nas florestas ao redor da cidade do que em Goma.

A ONU mantém cerca de 17 mil homens no Congo, a maior missão de paz da organização no mundo. No entanto, o contingente não é suficiente para conter a crise.

Tanto rebeldes como tropas do governo são acusados de cometer atrocidades contra civis, principalmente estupros em massa.

Recursos minerais
As origens do atual conflito no leste da República Democrática do Congo remontam ao genocídio de membros da etnia tutsi por hutus em Ruanda, durante o ano de 1994.

Nkunda afirma que suas tropas lutam para defender a comunidade tutsi de ataques de rebeldes hutus de Ruanda, acusados de terem participado do genocídio.

O governo do Congo já prometeu repetidas vezes impedir que milícias hutus utilizem seu território, mas até agora não cumpriu a promessa.

O último prazo para cumprir essa medida expirou no final de agosto, exatamente quando os confrontos foram retomados.

Há inclusive denúncias de ligações do exército congolês com as guerrilhas hutus.

No entanto, alguns analistas afirmam que os confrontos poderiam ter outro motivo. O leste do Congo é rico em recursos naturais, como ouro, e a luta poderia ser pelo controle dessas riquezas.

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