Líderes árabes cerram fileiras em torno de Bashir

Jorge Fuentelsaz. Doha, 30 mar (EFE).- Os líderes árabes reunidos hoje, em Doha, apostaram na resolução das profundas diferenças que os separam e cerraram fileiras em torno do presidente sudanês, Omar al-Bashir, contra quem o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu uma ordem de detenção.

EFE |

Na inauguração da cúpula da Liga Árabe, com destaque para as ausências dos líderes do Egito, Argélia, Marrocos e Omã, o presidente sírio, Bashar al-Assad, recomendou esquecer as divergências e resolvê-las através do diálogo.

Os desencontros árabes, que sempre caracterizaram as relações entre estes países, intensificaram-se desta vez em janeiro, durante a ofensiva militar israelense de 22 dias contra a Faixa de Gaza, na qual 1,4 mil palestinos morreram.

Esta brecha - que foi aberta entre os Estados "moderados", com Egito e Arábia Saudita à frente, e os "radicais", representados pela Síria e, em menor medida, pelo Catar - ficou refletida na ausência de representantes egípcios de alto nível na reunião de hoje.

O Egito, que não deu nenhuma versão oficial sobre sua decisão de não participar, acusou o Catar várias vezes pelas críticas feitas ao Cairo por sua maneira de enfrentar a crise palestina.

No entanto, a medida do Egito não teve o apoio de seus principais aliados, a Jordânia e a Arábia Saudita, que no fim decidiram viajar a Doha.

Em meio aos discursos dos líderes árabes a favor de aprofundar na reconciliação, o líder líbio, Muammar Kadafi, protagonizou um atrito com o rei saudita Abdullah bin Abdul Aziz, por cuja Casa Real mantém uma tradicional aversão, e deixou a sala, após interromper a ordem das declarações.

No entanto, após o incidente, os dois dirigentes se reuniram, em uma tentativa de diminuir as tensões.

Apesar destas disputas, que não terminarão com a cúpula, os dirigentes árabes insistiram na necessidade de se solidarizar com Bashir, apesar de o secretário-geral da Liga Árabe, Ban Ki-moon, ter defendido superar as tensões surgidas após a decisão do Tribunal Penal Internacional (TPI).

Em 4 de março, o TPI emitiu uma ordem de detenção contra Bashir por considerar que ele pode estar envolvido em crimes de guerra e lesa-humanidade cometidos durante o conflito armado da região de Darfur, que explodiu em janeiro de 2003 e no qual 300 mil pessoas morreram, segundo a ONU.

Em represália, Bashir ordenou a expulsão de 13 ONGs, medida à qual se referiu hoje o secretário-geral da ONU, que pediu ao chefe de Estado sudanês que reveja essa decisão.

Em seu discurso, poucos minutos depois do pedido de Ban, o presidente do Sudão não só reafirmou sua decisão, mas insistiu em que essas organizações tinham ido "além" e haviam mentido ao TPI sobre a situação em Darfur.

Além da ordem de detenção emitida contra Bashir, sobre a qual se espera a emissão de um comunicado de condenação, a pedido do próprio líder sudanês, também foram discutidas a reconciliação palestina, a iniciativa árabe de paz, e a situação no Iraque e na Somália.

As referências à crise econômica mundial também ocuparam um espaço preferencial nos discursos da reunião em Doha.

Neste sentido, Assad criticou o monopólio das decisões econômicas e políticas mundiais e pediu a reestruturação do sistema econômico.

"A crise torna necessária uma drástica revisão do sistema financeiro mundial, para encontrar um mais confiável", disse o emir do Catar e anfitrião da cúpula, Hamad bin Khalifa al-Thani, em apoio às palavras de Assad.

A crise econômica e a necessidade de um mundo multipolar serão dois dos principais temas a serem abordados novamente amanhã pelos líderes árabes, mas, desta vez, com seus colegas dos países sul-americanos, que já começaram a chegar a Doha para participar da 2ª Cúpula de Chefes de Estado da América do Sul e dos Países Árabes (Aspa). EFE jfu/an

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG