Líder do Khmer Vermelho diz que defendeu o Camboja de invasores

Depoimento inaugura defesa dos líderes do regime acusados de genocídio no país nos anos 1970 que deixou 2 milhões de mortos

iG São Paulo |

O ideólogo do Khmer Vermelho, Nuon Chea, afirmou nesta terça-feira que o regime do partido nos anos 1970 tinha como objetivo libertar o Camboja do colonialismo e proteger o país contra uma invasão do Vietnã. Com esse depoimento, Chea inaugurou sua defesa em um tribunal especial contra a acusação de genocídio.

Leia também:
- Corte do Camboja ouve acusações contra chefes do Khmer Vermelho

- Camboja inicia julgamento histórico de autoridades do Khmer Vermelho

AP
Foto divulgada pela Corte do Camboja mostra Nuon Chea, conhecido como Irmão Número Dois, ideólogo do partido comunista

O depoimento foi o primeiro em que um líder do Khmer Vermelho defendeu as motivações do regime maoísta desde que o tribunal da ONU começou, no ano passado, a julgar casos relacionados à revolução sangrenta dos Campos de Extermínio, que eliminou um quarto da população entre 1975 e 1979.

O ex-presidente Khieu Samphan, o ex-ministro de Relações Exteriores Ieng Sary e o "Irmão Número Dois", Nuon Chea, os três dirigentes ainda vivos do regime totalitário, são acusados de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, em um processo que durará vários anos e envolve 4 mil partes civis. O líder deles, Pol Pot, morreu na selva cambojana em 1998, prisioneiro de seus próprios correligionários.

Nuon Chea, o primeiro acusado a prestar depoimento, negou todas as acusações. "Minha posição na revolução era para servir os interesses da nação e do povo", afirmou. "A opressão, a injustiça me motivou a dedicar a vida à luta pelo país. Eu tive de deixar minha família para trás para libertar a terra mãe do colonialismo e da agressão, e da opressão de ladrões que querem roubar nossa terra e varrer a Camboja da face dessa terra", disse ele ao tribunal.

O Vietnã queria "engolir" o Camboja, disse Nuon Chea. "O exército do partido comunista do Vietnã e grupos militares vietnamitas ainda permanecem discretamente em solo cambojano com a ambição de ocupar, engolir o Camboja e eliminar o Camboja, seu rosto e sua etnia, trazendo imigrantes vietnamitas ilegalmente para viver no Camboja até hoje."

Promotores dizem que até 2,2 milhões de pessoas foram mortas sob o regime do Khmer Vermelho, que foi finalmente obrigado a deixar o poder quando o Vietnã invadiu o país em 1979.

Membros remanescentes do Khmer Vermelho continuaram lutando até os anos 1990. Pol Pot, que estudou na França e foi o arquiteto do regime, morreu em 1998.

A ex-ministra de Assuntos Sociais Ien Thirith, esposa de Ieng Sary, que sofre de perdas de memória, demência e, possivelmente, Mal de Alzheimer, foi declarada incapacitada para ser julgada e não assiste ao processo. Os magistrados haviam pedido sua libertação na semana passada, mas os procuradores apelaram e ela permanecerá detida pelo menos até que a Câmara de Apelações tome uma decisão, dentro de semanas.

Em declarações iniciais na segunda-feira, promotores cambojanos e internacionais lembraram casos concretos sobre os casamentos forçados, as torturas e assassinatos cometidos em cerca de 200 centros de segurança. A promotoria também atribuiu aos três membros da cúpula da organização de inspiração maoísta o planejamento de uma sistemática campanha para eliminar as minorias de origem vietnamita e de religião muçulmana.

Além disso, a promotoria assegurou que os três dirigentes da cúpula tinham informações sobre as mortes maciças e que os assassinatos obedeciam "estritamente às ordens e políticas dos acusados", algo que os réus negaram desde o início do processo judicial.

Em seu discurso, o promotor internacional Andrew Cayley afirmou que os três acusados representam um "legado catastrófico" e tem "sangue nas mãos".

Essa sessão começou formalmente em junho , com as deliberações sobre os aspectos legais e foi posteriormente segmentada em pequenos processos para tornar o julgamento menos complexo no tribunal estabelecido em 2006, após quase nove anos de discussões. Em julho de 2010, Kaing Guek Eav, conhecido como "Duch", chefe da prisão S21 da capital, onde cerca de 15 mil cambojanos foram torturadas antes de serem executados, foi condenado a 30 anos de prisão .

A primeira fase julgará exclusivamente as deportações maciças das cidades para o campo, que causaram a morte de milhares de pessoas por exaustão, crise de fome e doenças, assim como os crimes contra a humanidade relacionados com esses. O veredicto em apelação é aguardado para 3 de fevereiro.

O primeiro-ministro Hun Sen sempre se opôs à abertura de outro processo, e as acusações de pressão do governo cambojano sobre o tribunal provocaram uma polêmica nos últimos meses. "É um acontecimento de primeira magnitude que o processo enfim tenha começado", comentou o porta-voz do tribunal, Lars Olsen. "Muitas pessoas achavam que isto jamais aconteceria", acrescentou.

Com Reuters e AP

    Leia tudo sobre: khmer vermelhocambojatribunal internacional

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG