Líder argentina falta à reabertura de Teatro Colón

Por disputas com o prefeito de Buenos Aires, Cristina Kirchner rejeita convite para uma das cerimônias que marcam bicentenário

iG São Paulo |

AFP
Interior do Teatro Colón, em Buenos Aires (18/05/2010)
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner , recusou-se a participar nesta segunda-feira da reinauguração do Teatro Colón depois de o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri , ter indicado que o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) não seria bem-vindo à cerimônia. A casa será reinaugurada como parte das comemorações do bicentenário da Revolução de Maio, que deu início ao processo de independência do país.

"Se for com seu marido, terá de se sentar ao lado dele, e (essa presença) não me deixa contente", disse Macri ao convidar a presidente para a cerimônia de gala de reabertura do teatro, uma famosa casa de ópera inaugurada em 1908, um símbolo da pujança do país na época. "Desfrute tranquilo e sem presenças incômodas a véspera do 25 de maio", respondeu Cristina ao rejeitar o convite, referindo-se ao aniversário do bicentenário, na terça-feira.

Macri, de direita, é considerado inimigo de Kirchner, que acusa de estar por trás de um recente processo aberto contra ele, numa investigação sobre uma rede de espionagem telefônica na capital argentina.

Cristina comunicou que nenhum ex-presidente, com exceção de seu marido, será convidado ao jantar de gala da terça-feira 25 de maio, no Palácio do governo, para a qual foram chamados chefes de Estado estrangeiros. Assim, a presidente deixa de fora Carlos Menem (1989-1999), Fernándo de la Rúa (1999-2001) e Eduardo Duhalde (2002-2003). A líder argentina deixou de fora também o vice-presidente Julio Cobos, de quem também diverge.

Esses conflitos pessoais, em plena comemoração do bicentenário, refletem a crise institucional em que o país está mergulhado. "Chegamos ao bicentenário sem resolver alguns problemas cruciais de caráter político", afirmou o historiador Natalio Botana. "Em 1910, tratava-se de democratizar a República, agora, em 2010 é a vez de 'republicanizar' a democracia", disse.

"O panorama político que vivemos é o de conflito entre um poder presidencial decidido a não se resignar em suas pretensões e um Congresso e uma Corte Suprema dispostos a exercer sua cota respectiva de peso e contrapeso", destacou Botana.

Na quarta-feira, uma sentença da Corte Suprema indicou que a presidente não pode governar por decretos, depois de seu partido ter perdido a maioria parlamentar nas eleições de 28 de junho de 2009. No início de janeiro, a presidente afastou por decreto o presidente do Banco Central sem consultar o Congresso, o que motivou um conflito com o Parlamento e com a justiça.

Para o filósofo Santiago Kovadloff, "embora tenhamos reconquistado o sistema democrático há meio século" - em referência à presidência de Raúl Alfonsín, que pôs fim a décadas de golpes de Estado repetidos (entre 1930 e 1983) -, "a qualidade da democracia reconquistada é ainda tênue, a institucionalidade é um fantasma".

O historiador Felipe Pigna considera "preocupante a falta de um patriotismo empresarial, como acontece no Brasil". Há um século, a Argentina representava 58% do mercado automotivo em toda a América Latina, resumido, hoje, a 10% do brasileiro.

Para a analista Graciela Römer, que acaba de publicar uma pesquisa sobre os argentinos e o Bicentenário, "está sendo cozinhada em fogo brando na Argentina uma nova sensibilidade social que parece advertir que o desdém institucional, normativo e ético termina privando o país de resultados sociais e econômicos".

*Com AFP

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