Libertação dos reféns põe à prova novo chefe das Farc

O novo chefe das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Alfonso Cano, sofreu um duro golpe com o resgate pelo Exército colombiano de 15 reféns, entre eles Ingrid Betancourt, pouco tempo depois de ele ter se declarado disposto a negociar, consideraram especialistas.

AFP |

Com uma reputação de intelectual e de moderado, Cano "está numa encruzilhada", afirmou Alejo Vargas, diretor do departamento de Ciências Políticas da Universidade nacional.

Pouco antes da libertação, em 2 de julho, de Ingrid Betancourt e de outros 14 reféns, o novo chefe das Farc havia enviado sua primeira mensagem ao governo colombiano.

Nesta mensagem, divulgada terça-feira pelo canal de televisão colombiano RCN, Alfonso Cano dizia aos combatentes das Farc que "a proposta de um encontro com o governo para definir as modalidades de um acordo continua válida, assim como a decisão de manter um contato" com as autoridades de Bogotá.

"Persistimos em nossos esforços para chegar à paz democrática pela via civilizada do diálogo", prosseguia o documento.

Alfonso Cano substituiu o líder histórico da guerrilha, Manuel Marulanda, morto de um infarto em 26 de março passado.

A existência deste documento havia sido mencionada na segunda-feira desta semana pelo Alto comissário colombiano para a paz, Luis Carlos Restrepo, no momento em que ele anunciava que o governo buscaria um "contato direto", sem intermediários estrangeiros, com as Farc para chegar a um acordo sobre a libertação dos outros reféns e sobre as modalidades de um processo de reconciliação nacional.

Nenhuma reação oficial das Farc à libertação dos 15 reféns pelo Exército colombiano foi divulgada até hoje.

"As Farc estão numa situação difícil. Suas atuações lhe renderam um enorme descrédito político, tanto na Colômbia quanto no cenário internacional, e elas sofreram uma série de reveses militares. Cano tem vários problemas para resolver", destacou Alvaro Villarraga, diretor da Fundação pela cultura democrática.

Além disso, Alfonso Cano também precisa "consolidar sua liderança", ressaltou Vargas. "Graças a sua formação acadêmica (antropologia) e sua experiência do cenário político, ele deverá ter as predisposições necessárias para avaliar as novas circunstâncias de forma adequada", acrescentou.

Nascido em Bogotá, Alfonso Cano, 59 anos, sempre foi considerado um membro do braço político das Farc e não goza de muito prestígio na base do movimento guerrilheiro, formada essencialmente por ex-camponeses.

As Farc sofreram uma série de duras derrotas nos últimos meses. Além da morte de Marulanda, elas perderam dois dos sete membros de seu secretariado: Raúl Reyes, o número dois da organização, morto em 1 de março pelo Exército colombiano, e Ivan Rios, executado por seus próprios homens.

A já precária situação das Farc não deve melhorar, já que elas perderam seus principais reféns, que serviam de escudos humanos.

Segundo Dario Acevedo, especialista da história dos conflitos armados no século XX, Alfonso Cano está diante de vários desafios simultâneos, e precisa o quanto antes consolidar a unidade com o braço militar da organização, liderado por Jorge Briceno, mais conhecido como 'Mono Jojoy'.

"Ele precisa levantar o moral de suas tropas e controlar as rivalidades internas", resumiu Acevedo.

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