Lembrai-vos, lembrai-vos...

Lembrai-vos, lembrai-vos..

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Os britânicos lembravam tudo. Se não conseguiam lembrar, comemoravam. Que é como deve ser. Nós, brasileiros, não nos lembramos de nada. E comemoramos tudo. A vida, o mundo, isso tudo é de uma infinita falta de graça e é preciso esquentar nossos pandeiros e rebolar nossos traseiros.

Os britânicos, no entanto, além de não ter, nada entendem de pandeiro. Também seus traseiros são murchos e tristes. Em 34 anos de observação, aprendi apenas isso. Inglês (como devem ser chamados os britânicos) não tem, ou sequer possui, bunda. Feito o camarão daquele trote que passávamos ainda infantes e acreditando num mundo melhor não para nossos filhos, mas para nós mesmos.

Também ligávamos e perguntávamos se penico de barro enferrujava. Desligávamos em seguida, rindo muito, e temendo que houvesse uma maneira da pessoa (em geral o português do armazém da esquina) descobrir nosso telefone.

Deixo de lado, algo contrariado, traseiros e penicos. Eu quero falar de história. Do que o povão, cada vez mais ignorante, vai esquecendo.

No dia 5 de novembro de 1605, um grupo de conspiradores católicos, liderados por um indivíduo, Robert Catesby, entre os quais se encontrava um certo senhor Guy Fawkes, teve a bela idéia de fazer voar pelos ares o Parlamento, então tal como hoje, situado em Westminster. A detonação com pólvora (gunpowder) objetivava explodir o então rei protestante Jaime I da Inglaterra (ou Jaime VI da Escócia; sim, é complicado) juntamente com seus filhos mais velhos e a maioria de parlamentares, na ocasião ali então reunidos.

Um fiasco total. Os subversivos católicos não conseguiram ativar sequer um "traque de velha" (lembram-se?). Foram, por isso mesmo, ou apesar disso, torturados e executados de acordo com os costumes da época, que eu nem pretendo descrever pois ainda me resta alguma delicadeza de espírito.

Comemorando, o Reino Unido (agora sim, vale) acendeu fogueiras em todas cidades e aldeias do país. O povo, alegre e descontraído que era, com a tradicional arte e engenho dos destituídos (vide cerâmica nordestina brasileira) espontaneamente improvisou com seus parcos recursos (roupa velha roubada dos vizinhos) figuras representando a "canalha católica", conforme jocosamente os chamavam.

Nisso, havia o propósito simbólico de castigar aqueles que se atreviam a pensar não só em regicídio mas também em parlamentaricídio. De fogueira em fogueira, em meio a uma profusão de fogos de artifício, queimavam um boneco de pano que levava o nome de Guy, numa óbvia referência a Guy Fawkes, que, embora figura secundária no complô, tinha um nome mais sonoro que Robert Catesby. É verdade, amigo. O povo é uma generalidade não muito ladina. Divertida, sim. Esperta, não.

Deu-se então que o costume pegou. Até 1963, se você ficasse parado mais de uma hora numa esquina britânica, virava imediatamente parte da história do país e ganhava estátua. Mais ou menos como os cariocas fazem com seus cronistas sociais. Dia 5 de novembro passou a ser Bonfire Night, a Noite das Fogueiras. Comemorava-se com os mesmos bonecos, em muito semelhantes aos nossos Judas malhados em postes nos sábados de Aleluia, costume que foi proibido ou por Jânio Quadros ou um dos milicos que andaram mandando ninóis.

Só que eles, os ingleses britânicos não malhavam o Guy, como passou a ser conhecido. Deixavam-no passar o dia nos cantos, pediam uns trocados e, à noitinha, jogavam o boneco na fogueira. Não é tão divertido quanto presenciar um enforcamento público ou esquartejamento seguido de queimação de conspirador católico, mas dava, dá, para break the branch (quebrar o galho).

"A penny for the guy", pedia a molecada ao lado do judas lá, ou cá, deles. Um costume e bordão que perdurou por quase quatro séculos. TS Eliot sapecou um "a penny for the guy" em seu poema clássico The Hollow Men ("Os Homens Ocos").

Garotão metido a besta que fui, com a tola mania de ler tudo que me caía nas (hoje das) mãos, sempre gostei de citar Eliot. Lembro de minha emoção, logo nos primeiros meses de Londres, em 1968, quando, no 5 de novembro, lá numa esquina do bairro onde então morava, Willesden, vi um guy com dois garotos repetindo a para mim imortal linha de Eliot. Dei uns dois xelins, que ainda os havia na época.

Moral da história: aqui em Londres tem fogos de artifício, tem um ou outro bairro que comemora o 5 de novembro. Guy? Nunca mais vi. Na verdade, a tradição passou para o campo. No fim das contas, tudo acaba no campo. Lá, então, podem repetir as rimas tradicionais:
Remember, remember, the Fifth of November etc.

Agora, neste ano, o Fifth of November serve apenas para comemorar a vitória de Obama.

***
Engraçado. Não vi ninguém comentar. Nem o prenúncio nem a semelhança. Repararam como o Lewis Hamilton é a cara do presidente eleito Barack Obama? Deve ser por isso, somado ao massacre midiático imposto ao Reino Unido com as eleições norte-americanas, que, no dia 4 de novembro, 17 milhões e 253 mil cidadãos britânicos foram às urnas e depositaram seus votos em Obama. 1359 apenas preferiram McCain.

Lewis Hamilton, como é residente na Suíça, onde há mais de um ano obteve domicílio a fim de, conforme suas afirmações na época, fugir ao "assédio dos fãs", votou em René Aschenbauer, um alto dignatário local.

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