Lema de Mockus é a "legalidade democrática"

Apresentando-se como antítese do político tradicional, opositor da disputa presidencial da Colômbia tem histórico excêntrico

iG São Paulo |

No início do ano, ninguém apostava que o independente Aurelijus Rutenis Antanas Mockus Sivickas, que concorre pelo Partido Verde, poderia vencer as eleições presidenciais deste ano na Colômbia.

Com um histórico excêntrico – que inclui se fantasiar de Supercidadão para dar aulas de civilidade quando prefeito de Bogotá, mostrar as nádegas para chamar a atenção de estudantes que não o deixavam falar quando reitor na Universidade Nacional e se casar sobre um elefante –, o matemático e filósofo de origem lituana, de 58 anos, reconhece que as pessoas o achavam “um pouco estranho”.

Mas pesquisas publicadas antes do primeiro turno eleitoral, em 30 de maio, indicavam que não só Mockus estava empatado com o governista Juan Manuel Santos, de 59 anos, como teria chances de vencer a disputa no segundo turno, no domingo 20 de junho.

No entanto, as previsões das pesquisas não se confirmaram nas urnas. Mockus obteve 21,5% dos votos do primeiro turno, enquanto seu rival obteve 46,57%. Agora, parte para o segundo turno com poucas chances de sucesso, já que a esperança que despertou foi perdida por erros próprios e também pela habilidade e a máquina política de Santos.

Mockus não soube transformar a simpatia despertada entre muitos cidadãos em um "compromisso" com o voto pelo Partido Verde, disse o analista político Fernando Giraldo, para quem vários fatores levam a uma folgada vitória de Santos no domingo.

Nascido em Bogotá em 25 de março de 1952, o ex-prefeito dessa capital em dois períodos (1995-1997 e 2001-2003), e que reconheceu sofrer de mal de Parkinson , surgiu como principal alternativa a Santos, o candidato do presidente Álvaro Uribe e um dos personagens mais poderosos do país.

Pai de quatro filhos, lançou-se como "terceira via" frente a "segurança democrática" de Uribe. Apresentando-se como antítese do político tradicional, Mockus marcou seus dois mandatos como prefeito de Bogotá com um discurso pedagógico de conscientização cidadã e campanhas pela economia de água, o respeito às leis de trânsito e o combate à violência.

Assim como Santos, Mockus defende o liberalismo econômico e a continuidade da política de Segurança Nacional de Álvaro Uribe, que com US$ 6 bilhões em ajuda dos EUA conseguiu isolar com mão-de-ferro a guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Ele também defende a educação, o respeito à lei e à vida e a transparência para trazer prosperidade ao país.

Mockus baseou sua campanha no tema da “legalidade democrática”, em uma crítica aos escândalos dos oito anos de Uribe. Um deles é o chamado “falsos positivos”, em que jovens marginalizados foram executados e identificados pelas forças de segurança como guerrilheiros, com o objetivo de inflar os resultados da política de segurança. Outro são as revelações de que a polícia secreta espionou oponentes políticos do governo.

Ele também usou a internet para disseminar sua mensagem, tornando-se a sétima pessoa do mundo com mais amigos no Facebook e o político colombiano com mais seguidores no Twitter. Sua campanha conta com a ajuda de voluntários, recrutados nas redes sociais da internet. Com essas características, o apelo de Mockus foi mais bem recebido entre os eleitores mais jovens, urbanos e provenientes da classe média alta do país.

Em desvantagem

Segundo o analista Giraldo, o candidato verde não conseguiu "motivar" aos indecisos do primeiro turno e dificilmente conseguirá no segundo. "O povo tem a percepção de que quem dará continuidade às políticas de segurança é quem já demonstrou que pode fazê-lo", disse o especialista referindo-se a Santos, que foi ministro da Defesa (2006-2009) de Uribe.

Também beneficia a Santos o recente resgate de quatro militares em poder das Farc , o que se tornou o "novo êxito" da política de segurança de Uribe.

A segurança, segundo Giraldo, foi precisamente o eixo da campanha eleitoral desde janeiro, com um pequeno parênteses em março e abril no qual a "legalidade" de Mockus se impôs, coincidindo com um forte avanço nas pesquisas do candidato verde.

Os colombianos "no fundo são conscientes" de que muito do conquistado pelo governo Uribe foi fruto das grandes doses de "ilegalidade" e por isso começaram a "escutar" a proposta de Mockus, quando a Corte Constitucional rejeitou o referendo sobre a reeleição do líder.

Então disparou a "onda verde", graças ao apoio dos jovens por meio das redes sociais de internet, mas também dos meios de comunicação, que, para Giraldo, "foram importantes no crescimento" desse fenômeno.

As imprecisões e dúvidas de Mockus sobre alguns temas, que Santos aproveitou para apresentá-lo como um candidato "indeciso", e o fato de não demonstrar o "espírito partidário" em apoio cidadão começaram a tirar a força da "onda verde", disse Giraldo.

Pesou contra também a manutenção de uma tendência histórica na Colômbia: os jovens, principal trunfo de Mockus, não votaram no primeiro turno.

*El País, AFP, EFE e Washington Post

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