Leitor relata suas impressões da Venezuela, a onze dias do referendo

O leitor Paulo Lorenz, que conheceu a Venezuela em 2001, enviou ao Último Segundo um relato com suas impressões sobre sua nova visita, nesta semana. O momento é importante para o país: no dia 15 de fevereiro, a população vai decidir, por meio de um referendo, se permitirá ou não a reeleição ilimitada, uma proposta do presidente Hugo Chávez. Leia o relato de Paulo Lorenz:

Redação |

Uma mudança em minha vida profissional em 1999, me levou a viajar (exaustivamente), desde então, por vários países da América Latina. Estive pela primeira vez na Venezuela em 2001, para visitar a Casa da Moeda, que fica em Maracay, a uns 150 km de Caracas, e mais alguns clientes na capital. O início do governo Chávez trazia um misto de esperança e desconfiança às pessoas, e o assunto da época era a recente contratação de médicos cubanos para servirem na periferia de Caracas.

O que eu levei daquela viagem foi um par de tênis Adidas comprado por um preço módico na ocasião, e alguns pacotes de um preparado pronto para cachapa, uma deliciosa panqueca à base de milho que se vende em qualquer canto por aqui. E, obviamente, me chamara a atenção o preço da gasolina, então o equivalente a 4 (isso mesmo, quatro) centavos de dólar o litro. Na ocasião ainda me comentaram que houve tentativas do governo de aumentar para 6 centavos o preço do litro, e que isso resultou numa tremenda manisfestação popular, logo sufocada pela ação do Exército. Era o chavismo começando a mostrar sua face mais oniagente e obscura.

Pois bem. Na última segunda-feira, dia 2 de fevereiro, após quase oito anos, embarquei novamente para a Venezuela. E novamente o destino era a Casa da Moeda, em Maracay. Quando desci do avião e entrei no saguão da imigração, percebi imediatamente a mudança.

Em 2001 entrei no mesmo lugar e encontrei uma foto aérea gigantesca do magnífico Parque Nacional Canaima, o que me fez voltar alguns meses depois, em férias, pra conhecer esse lugar. Dessa vez me deparei com uma foto imensa de Hugo Chávez Frías, em sua inseparável indumentária vermelha com os dizeres Em 1999 Venezuela se liberó, y se liberó para siempre.

O choque continuou na saída do desembarque, onde fui cercado por uma multidão de cambistas maltrapilhos me oferecendo best rate! best rate!. Não tive dúvida, fui direto sacar dinheiro no caixa eletrônico, que fica num canto quase inacessível do aeroporto ¿ e diga-se de passagem, havia quatro caixas, mas só um funcionando.

Encontro o senhor Osuna, que me levaria a Maracay, segurando o clássico cartaz com meu nome, obviamente grafado errado... (não adianta, na América Latina, Paulo será sempre Pablo; por mais que você explique, ao final te dizem: ok Pablo). Na saída do aeroporto, recém-reformado, há uma construção portentosa e inacabada. Perguntei o que era e o Sr. Osuna me disse: obra do chavismo. Era para ser um hotel, pois não há hotéis nesta zona. Mas a obra está parada há alguns anos, por falta de verba do governo (esta última parte ele diz sem muita convicção, ou querendo me fazer ler as entrelinhas).

Ao sairmos do estacionamento do aeroporto, que fica em La Guaira, no litoral, a cerca de 40 km de Caracas, imediatamente se forma um engarrafamento pra subir a serra que leva à capital. Tudo bem que chovia muito, mas o Sr.Osuna me explica algo mais: há alguns anos o governo, em sua infinita bondade, incentivou fortemente a compra de carros populares (chineses e coreanos sobretudo), mas se esqueceu de investir na infra-estrutura viária do país. O resultado veio rápido. Caracas tem hoje mais carros do que comporta a extensão de suas vias. Há trânsito 24 horas por dia em qualquer lugar da cidade.

O que em 2001 levava não mais que 20 minutos agora demorou mais de uma hora. Subimos lentamente a serra para chegar finalmente a Caracas. Em todo esse trecho não havia um poste sequer que não ostentasse um cartaz vistoso e vermelho inscrito nele um grande SI. Seriam mais 150 km até Maracay, e até lá não vi um único poste sem o mesmo cartaz.

O Sr. Osuna sintoniza o rádio em uma estação independente de notícias, no qual a locutora, nitidamente antichavista, entrevista e discute acaloradamente com um deputado do oficialismo. O tema é o referendo popular do próximo dia 15 de fevereiro, no qual os venezuelanos podem (não devem, o voto na Venezuela não é obrigatório, ainda) escolher se cinco artigos da atual constituição serão alterados. A alteração visa, em suma, permitir a reeleição ilimitada de políticos em praticamente todos os cargos públicos, do presidente da república ao vereador da alcaldia (algo similar às nossas subprefeituras). Ou seja, a abominável, viciosa e totalmente antidemocrática perpetuação no poder.

AP
Hugo Chávez é saudado pela população em comício

Hugo Chávez é saudado pela população em comício em Caracas

As pesquisas oficiais são realizadas pelo governo, e só o governo pode realizar pesquisas de opinião pública. E só o governo pode publicar os resultados através de redes de TV e rádio, obviamente do governo. Os resultados até agora indicam que o SI (favorável à mudança) vai ganhar, claro. Por outro lado, todas as pessoas com quem eu conversei até agora dizem que votarão NO, e que muitos dos oficialistas, assim como no último referendo, preferem se abster a votar a favor.

Nas últimas eleições provinciais, que incluem Estados e alcaldias, o oficialismo venceu, por exemplo, em apenas uma das 18 regiões de Caracas, e teve uma derrota retumbante em Maracaibo, o Estado que concentra as maiores reservas de petróleo. O comentário geral é que se o SI não ganhar, Chávez tentará outro referendo e mais outro e mais outro até conseguir o que quer. Isso não descartando a possibilidade de um autogolpe com direito a fechar congresso, colocar o Exército (mais uma vez) na rua, e todos os etceteras a que tem direito esse tipo de ação macabra.

Chego em Maracay quase cinco horas depois de aterrisar em Caracas e percebo que a cidade está um tanto quanto pacata. Logo o Sr. Osuna me esclarece: Chávez decretou no domingo a noite que segunda-feira seria feriado. Por que não decretou isso na sexta, perguntei? Porque senão as pessoas já iriam para a praia na sexta ou nem trabalhariam. O motivo do feriado é a comemoração de 10 anos do início da revolução bolivariana, ou seja, de sua posse. Minha fome foi duramente castigada nesse dia, pois não havia um restaurante - sequer o do hotel - aberto, a não ser todas as lojas do inimigo, o McDonalds, ao qual não por razões anti-imperialistas, mas sim antiácidas, eu decidi há alguns anos parar de frequentar.

No dia seguinte, às 7h30, conforme o combinado, uma pessoa da Casa da Moeda veio me buscar, e passei o primeiro dia de um total de três trabalhando com eles e escutando, de cada um com quem tive contato, as agruras do dia a dia a que são submetidos. Entre outras, o direito de adquirir um máximo de US$ 2.500 por ano para viajar ao exterior, a dificuldade extrema em tirar passaporte (o site para agendamento quase nunca funciona), a sobretaxação da entrada de divisas do exterior. A gasolina hoje custa cerca de 35 centavos o litro, e ainda que para nós seja um preço ridículo, subiu quase dez vezes se comparado ao preço de 2001.

A vida encareceu absurdamente por aqui. Não era assim, eu me lembraria. Na padaria, um suco de laranja e uma cachapa, comida extremamente popular, me saiu o equivalente a R$ 35. E o mais incrível de todos: Chávez retirou o inglês como matéria curricular do ensino público. Quem quiser aprender inglês em pouco tempo vai ter que ser autodidata, pois as escolas de idiomas que ainda insistem em ensinar inglês são tão sobretaxadas que estão desaparecendo. Ainda nesse dia, regressando ao hotel, vejo um único e corajoso veículo com o vidro traseiro pintado em letras brancas e garrafais : NO ES NO!. O comentário da pessoa que me conduzia: é um louco inconsequente que vai ter o carro apedrejado a qualquer momento.

AP
Em protesto realizado em Caraca, mulher mostra

Em protesto em Caracas, mulher mostra "no" escrito em sua mão

Ao final da minha jornada de trabalho, combinamos na mesma hora para hoje, às 7h30, no lobby do hotel. E afinal, de onde estou escrevendo esse relato, se não da Casa da Moeda?

Bem, lá estava eu no lobby do hotel, às 7h30, esperando. E esperei, esperei e esperei. Ás 8h ligo na Casa da Moeda, ninguém atende. Esperei. 8h30 ligo de novo, nada. 9h30, nada, ninguém atende e ninguém veio me buscar. Descobri o telefone da portaria do local. Atendeu o segurança. Pedi para me comunicar com meu contato e ele me informou: é que hoje foi decretado feriado em Maracay, então tem ninguém aqui.

A recepcionsita me esclarece. Hugo Chávez Frías, ex-combatente do grupo de paraquedistas de Maracay, estará hoje na cidade para celebrar os 17 anos da rebelião de 1992, na qual tentou frustradamente um golpe de Estado. Por isso, ontem à noite, às 22h, decretou que hoje seria feriado em Maracay. As palavras do representante na Venezuela da empresa para a qual trabalho: és una vagabundería de un rojo lo que están haciendo...

Em tempo, estou na Jacuzzi do hotel, celebrando la revolución. Só espero que haja algo mais que McDonald´s aberto hoje...

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