VARSÓVIA (Reuters) - O líder anticomunista polonês Lech Walesa ameaçou na segunda-feira devolver o prêmio Nobel da Paz que recebeu e deixar a Polônia depois que um livro - o segundo em um ano - o acusou de ser informante da polícia secreta durante o antigo regime. Walesa -- antigo líder do sindicato Solidariedade que derrubou o comunismo na Polônia em 1989 e o primeiro presidente pós-comunista do país, disse estar cansado de se defender contra as acusações de que ele teria cooperado com o regime comunista.

"Estou aborrecido e indignado, eu lutei por um país livre, mas isso é anarquia", disse Walesa a jornalistas.

Era uma reação às acusações feitas no livro do estudante Pawel Zyzak, de 24 anos, sugerindo que Walesa trabalhou para a polícia secreta e teve um filho ilegítimo.

No ano passado, os poloneses puderam ler "Walesa e o Serviço Secreto", que também o acusava de ser informante, acusação que Walesa sempre negou.

Num blog intitulado "basta de piadas", Walesa disse que não participaria das comemorações deste ano para marcar o 20 aniversário da queda do comunismo na Polônia caso as acusações persistissem.

"(Se elas continuarem) devolverei todos os prêmios e honrarias e no movimento seguinte deixarei o país", escreveu.

Walesa está particularmente aborrecido pelo fato de que o livro "Walesa e o Serviço Secreto" foi escrito por historiadores a serviço de um organismo estatal, o Instituto de Memória Nacional (IPN), que supervisiona os arquivos da era comunista.

Críticos acusam o IPN, fundado por rivais pós-1989 de Walesa, de conduzir uma "caça às bruxas" de orientação política em vez pesquisar a história de modo objetivo.

"(Se o Estado apoiar essas acusações) minha honra não me permitiria manter todas as coisas que recebi, incluindo o (prêmio) Nobel (da Paz)", disse Walesa.

Historiadores afirmam que, a menos que a colaboração seja comprovada sem deixar dúvidas, é preciso cautela, porque os serviços secretos falsificaram muitas vezes documentos para desabonar líderes da oposição.

Um tribunal que averiguou as acusações anteriores de espionagem contra Walesa inocentou o líder em 2000, dizendo que o serviço secreto SB falsificou documentos nos seus arquivos numa tentativa fútil de evitar que ele recebesse o prêmio Nobel em 1983.

O premiê Donald Tusk saiu em defesa de Walesa na segunda-feira.

"Walesa permanecerá um tesouro nacional", disse Tusk a jornalistas, ele próprio um antigo ativista do Solidariedade.

"Quero fazer um apelo aos historiadores do IPN para que eles não abusem dos fundos públicos...O IPN tem a chance de sobreviver apenas se operar como uma instituição politicamente e ideologicamente neutra. Ele não existe para louvar Walesa ou difamá-lo", afirmou ele.

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