Uma das publicações médicas mais respeitadas do mundo, a revista britânica Lancet, acusou nesta sexta-feira o Papa Bento XVI de ter distorcido as evidências científicas em suas declarações sobre o uso do preservativo e exigiu que faça uma retratação.

"Ao dizer que os preservativos aumentam o problema do HIV/Aids, o Papa publicamente distorceu evidências científicas para promover a doutrina católica nessa questão", afirmou a Lancet nesse artigo.

"Se o erro do Papa se deveu à ignorância ou a uma tentativa deliberada de manipular a ciência para sustentar a ideologia católica não é claro.

A publicação britânica acrescenta: "Quando uma pessoa influente, seja uma figura religiosa ou política, faz uma falsa declaração científica que pode ser devastadora para a saúde de milhões de pessoas, ela deveria se retratar".

"Qualquer coisa a menos da parte do Papa Bento XVI seria um imenso desserviço ao público e aos defensores da saúde, incluindo milhares de católicos que trabalham incansavelmente para tentar evitar a propagação do HIV/Aids no mundo".

O início da viagem do Sumo Pontífice pelo continente africano foi marcado por suas polêmicas declarações sobre o uso de preservativos, quando afirmou que não se podia "solucionar o problema da Aids", pandemia devastadora na África, "com a distribuição de preservativos". "Ao contrário, sua utilização agrava o problema", enfatizou.

Isso levou à reação de várias ONGs, como o Movimento Camaronês pelo Acesso aos Tratamentos (MOCPAT).

"O Papa vive no século XXI?", questionou seu diretor, Alain Fogue. "As pessoas não vão fazer o que o Papa disse. Ele vive no céu e nós vivemos na Terra", acrescentou.

"Queira ou não, de cada 100 católicos, 99 usam preservativo. O Papa deve entender que a carne é fraca! Será que o Papa desconhecia, ao chegar a Camarões, que as pessoas soropositivas representam um número importante da população?".

Nesta sexta-feira o bispo da cidade francesa de Orleans André Fort retomou a polêmica ao questionar a utilidade dos preservativos contra o vírus da Aids,

"Vocês e os cientistas sabem muito bem: o tamanho do vírus da Aids é infinitamente menor do que um espermatozóide. Está provado que o preservativo não protege 100% contra a Aids", disse a uma estação local.

"Nos maços de cigarros está escrito 'perigo'. Nas caixas de preservativos deveria ser possível ler 'confiabilidade limitada'", acrescentou o bispo.

Esta declaração suscitou a indignação de várias autoridades médicas e daqueles que trabalham na luta contra a Aids.

"Estou consternado com essas declarações, ao mesmo tempo como médico, como cientista e como médico católico", disse Jean-Francois Delfraissy, diretor da Agência Nacional Pesquisas sobre Aids, à France Info.

A afirmação do bispo de Orleans é "completamente falsa". "Temos dados que mostram que é fato que o preservativo é fundamental para bloquear a transmissão do vírus da Aids durante as relações sexuais", acrescentou Delfraissy.

O Vaticano se opõe terminantemente a todas as formas de contracepção diferentes da abstinência e reprova o uso do preservativo, mesmo por motivos profiláticos (prevenção de doenças).

Já sob o pontificado de João Paulo II, a posição oficial da Igreja católica era a defesa da castidade, ou seja, a fidelidade no casamento e a abstinência.

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