Lágrimas de Putin após vitória na eleição intrigam russos

Visto como durão, presidente eleito disse que vento forte causou lágrimas; ele pediu que suposta fraude eleitoral seja investigada

iG São Paulo |

As lágrimas derramadas pelo presidente eleito na Rússia, Vladimir Putin, após sua vitória na eleição do último domingo deixaram perplexos os russos, acostumados ao rosto destemido do ex-agente da KGB.

"São de verdade ou são lágrimas de crocodilo?", questionou nesta segunda-feira um dos internautas russos que inundaram a rede com centenas de comentários, cada um mais irônico do que o outro, sobre as já famosas "lágrimas de Putin".

AP
Em discurso ao lado do antecessor Dmitri Medvedev, Putin parecia estar chorando (4/3)
Logo após ser informado de sua vitória eleitoral no primeiro turno , Putin fez um discurso junto ao antecessor Dmitri Medvedev. No palanque, cercado de centenas de bandeiras da Rússia, Putin apareceria com lágrimas nos olhos. "Agradeço a todos os que disseram 'sim' a uma grande Rússia. Essa é nossa vitória e não vamos entregá-la a ninguém", afirmou o novo líder, com seus olhos azuis marejados.

As lágrimas claramente filmadas pelas câmeras de televisão contrastaram com a imagem de homem de ação que sempre quis transmitir Putin, que gosta de ser visto como piloto, motociclista, caçador e lutador de artes marciais.

Suspeita de fraude: Observadores internacionais denunciam irregularidades em eleição

"Foi o vento. Foram autênticas lágrimas por causa do vento", disse Putin ao se reunir com os representantes de sua campanha eleitoral.

Seu porta-voz, Dmitry Peskov, também tentou explicar que as fortes rajadas de vento que sopravam no ato realizado ao ar livre na Praça Manezh foram a verdadeira causa das lágrimas.

Tensão

Alguns analistas, no entanto, não hesitaram em comentar nesta segunda-feira que as lágrimas são consequência dos meses de tensão vividos desde as eleições parlamentares de dezembro, denunciadas como fraudulentas pela oposição não parlamentar.

"Moscou não acredita nas lágrimas", escreveu um internauta sobre as imagens de um Putin emocionado.

Alguns internautas russos se orgulharam do fato de seu presidente ter mostrado seu lado mais sensível após a vitória eleitoral, mesmo que uma única vez. Outros, no entanto, o acusam de não ter expressado a mesma emoção quando mais de 330 pessoas morreram, metade delas crianças, no sequestro de uma escola de Beslan por terroristas chechenos em setembro de 2004.

A rede também ficou cheia de caricaturas de Putin chorando com um lenço estampado com a cifra 64%, em referência à porcentagem de votos que recebeu no último domingo.

Putin, que disse que sua vitória eleitoral não foi "nenhuma surpresa", demonstrou emoções em poucas ocasiões públicas. Há quem diga que a única ocasião em que o viram chorando desconsoladamente em público foi no enterro de seu padrinho político, o prefeito de São Petersburgo, Anatoly Sobchak.

Uma biografia publicada pouco antes das eleições pela famosa jornalista russa Masha Gessen foi intitulada "O homem sem rosto", devido à atmosfera de mistério que envolve a personalidade de Putin. Acostumado a ridicularizar o populismo de seus oponentes políticos, Putin é muito dado a usar uma linguagem de quartel em seus discursos políticos ou durante suas reuniões com membros do governo.

Eleições

Nesta terça-feira, Putin reconheceu que houve irregularidades durante a votação, depois de grandes protestos na segunda-feir a em que manifestantes denunciavam fraude eleitoral. "Certamente, irregularidades ocorreram. É preciso denunciá-las e investigá-las, para que tudo fique esclarecido", afirmou Putin.

Putin demonstrou sua convicção de que as irregularidades serão investigadas pelas instâncias correspondentes. "Confio na máxima supervisão e controle da situação para que não haja falhas", declarou Putin durante reunião com observadores eleitorais.

Ele criticou a postura de alguns opositores, como a do líder comunista e segundo candidato mais votado, Gennady Zyuganov, quem não reconheceu sua vitória eleitoral.

Na mesma linha, o secretário da Comissão Eleitoral Central (CEC), Nikolai Konkin, garantiu nesta terça-feira que não espera mais do que cem denúncias de infrações cometidas durante o pleito.

Konkin negou categoricamente que o procedimento de votação fora do domicílio eleitoral tenha sido aproveitado para propiciar as falsificações. "Neste pleito votaram 300 mil pessoas menos do que o total de eleitores que receberam cédulas de votação (fora do lugar de residência habitual). Se tivessem votado várias vezes, dificilmente o número seria inferior", indicou.

Saiba mais: Entenda a importância e as polêmicas das eleições na Rússia

Mais de 20 mil pessoas se reuniram para protestar contra as eleições de domingo. A manifestação, que havia recebido a autorização oficial, terminou com a dispersão violenta dos presentes por soldados das tropas de choque e centenas de detidos.

Entre os detidos figuram o popular blogueiro Alexey Navalny; o líder da Frente de Esquerda, Sergei Udaltsov, e o dirigente da organização opositora Solidarnost Ilya Yashin.

EFE
Polícia prende opositor que manifestava em frente à Comissão Eleitoral Central em Moscou, na Rússia (5/3)
*Com EFE

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