Kwanzaa, uma celebração da cultura afro-americana ofuscada pelo Natal

Lucía Leal. Washington, 24 dez (EFE).- Quando as luzes do Natal se apagam e o Ano Novo se aproxima, muitos afro-americanos festejam o Kwanzaa, uma desconhecida celebração da cultura negra.

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A festa mais familiar é o Natal e a mais famosa o Reveillon, mas para milhões de famílias negras dos Estados Unidos, o dia mais esperado é 26 de dezembro, quando tiram a poeira de um grande candelabro e colocam três velas verdes à esquerda, três vermelhas à direita e uma preta no centro.

Todas as manhãs, de 26 de dezembro a 1º de janeiro, as famílias acenderão uma delas, que representam os sete princípios do Kwanzaa, uma festa criada em 1966 pelo professor e ativista negro Malulana Karenga.

A tradição, cujo nome significa "primeiros frutos" em swahili, tentou reviver durante mais de 40 anos o sentimento da comunidade negra dos Estados Unidos em torno de suas raízes e a cultura da África.

No entanto, cada vez são menos as crianças afro-americanas escutam as histórias de seus pais sobre o significado das sete velas e sobre aquele continente distante de onde seus ancestrais vieram.

Segundo Keith Mayes, autor de um livro sobre a celebração, 2 milhões de americanos festejam hoje o Kwanzaa, uma proporção muito pequena comparada com os 40 milhões registrados no último censo como afro-americanos.

Não é segredo para ninguém, nem sequer para seus mais fortes seguidores, que a tradição viveu seu esplendor durante suas duas primeiras décadas, e que, desde então, os níveis de participação caíram substancialmente.

A chave do sucesso estava no movimento de libertação negra que tomou força na década de 70 e que serviu como motor para a celebração, criada expressamente para reforçar a identidade de uma comunidade em busca de progresso.

Mas a agitação foi se enfraquecendo e a decadência foi inevitável.

O profundo desconhecimento da tradição em nível mundial é refletido no documentário "The Black Candle", dirigido por M. K.

Asante Jr, em 2008.

"Quando perguntei aos jovens de EUA, África, Europa e Caribe se sabiam o que era o Kwanzaa, as respostas iam desde 'é o Natal' ou 'algo relacionado com o amor' até 'não tenho nem ideia. O que é?", conta Asante em seu filme.

No primeiro natal da família do presidente americano, Barack Obama, cujo pai era queniano, o líder não celebrará o Kwanzaa, mas deve emitir uma mensagem por escrito simpática à tradição.

Obama não é o único afro-americano que tem orgulhos de suas raízes, mas que não abraça a tradição. Milhões de negros se negaram a celebrá-la, inclusive quando ele se tornou moda, indignados por seu caráter pagão ou pela controvertida figura de Karenga, seu criador, um radical ex-convicto.

Quando o Kwanzaa foi criado, Karenga costumava promovê-lo como uma alternativa ao Natal, qualificando o cristianismo de religião branca e convocando os negros a repeli-la.

No entanto, a celebração foi mudando na medida em que ganhou mais adeptos, e seus promotores afirmam agora que não se trata de uma tradição religiosa, mas cultural, e que não é, portanto, incompatível com o Natal ou com o Hannukah judeu.

Concorra ou não com o Natal, o Kwanzaa tem seu próprio "Papai Noel": o "Umoja", um contador de histórias que narra lendas africanas. Os presentes, por outro lado, continuam sendo responsabilidade do bom velhinho.

Quando a última vela é acesa, começa o esperado karamu, uma festa de Ano Novo que honra a memória dos escravos, com a exuberante gastronomia africana e o irresistíveis ritmos do continente. EFE llb/pd

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