Kiyani critica estratégia no Afeganistão, mas garante apoio do Paquistão

Igor G. Barbero.

EFE |

Rawalpindi (Paquistão), 1 fev (EFE)-. Após dois anos no cargo, o chefe do Exército paquistanês, Ashfaq Pervez Kiyani, criticou hoje em seu primeiro encontro com a imprensa internacional alguns pontos da estratégia dos Estados Unidos no Afeganistão, mas garantiu o apoio de seu país para que o conflito chegue ao fim.

Conforme advertiu o chefe militar, Washington tem de buscar o "apoio" do povo afegão e ressaltou que o objetivo deve ser "um Afeganistão pacífico e estável".

"Se não conquistamos o apoio do povo, não estamos vencendo, mas perdendo", resumiu Kiyani em um ato no quartel-general de Rawalpindi, do qual participaram 20 jornalistas de um grupo seleto de meios de comunicação.

"Nosso objetivo é chegar a um Afeganistão estável, pacífico e amigo. Não podemos desejar-lhe o que não desejamos para o Paquistão", declarou Kiyani, quem assegurou que seu país quer ter no Afeganistão "um ativo estratégico", mas descartou que isso signifique "controlá-lo".

Kiyani se mostrou cético diante de alguns pontos da estratégia dos EUA no Afeganistão e expôs que "é preciso entender algumas das constantes do Afeganistão, como sua geografia segmentada, sua cultura tribal e sua história".

"Devido aos dois primeiros (elementos), quase nunca um Governo central foi forte. Se este fato for ignorado teremos problemas.

Acomodar tudo isso leva tempo", alertou.

Além disso, observou que para criar milícias anti-talibãs - algo que no Paquistão foi feito "com sucesso", segundo ele -, as tribos precisam estar convencidas que "estão do lado vencedor", embora tenha destacado que "isto não é assim no Afeganistão e precisa mudar".

Kiyani também insistiu na necessidade de "um bom governo" no país vizinho e criticou que Washington tenha fixado uma data para transferir a responsabilidade de segurança às forças afegãs ao declarar que não é realista começar a fazê-lo "em um ano".

"Não se pode conseguir um Exército no Afeganistão em um ano. Ter um Exército de 200 mil soldados levará no mínimo quatro anos e, o treinamento do mesmo, 25 anos", especificou.

O general ofereceu a ajuda do Paquistão para formar tanto o Exército quanto a Polícia afegãs e mostrou sua preocupação com que a Índia possa ter um papel neste âmbito.

"Temos a capacidade e a vontade de fazê-lo. Se deve confiar no Paquistão", disse, ressaltando que é uma prioridade para seu país que o Exército afegão seja amigo e não uma ameaça.

"Queremos estabilidade em nossa fronteira e não ter de olhar para os dois lados", afirmou, em alusão à já vigiada fronteira oriental com a Índia.

Kiyani disse que as operações lançadas em 2009 no Paquistão "contribuíram para melhorar a situação no Afeganistão" e reiterou o compromisso de seu Exército de continuar ajudando "de acordo com os interesses nacionais".

O chefe militar lembrou que o Paquistão perdeu mais de 2,2 mil soldados desde 2001, incluindo um bom número de altos comandantes e oficiais dos serviços de inteligência, sofreu grandes perdas econômicas e fornece apoio logístico às forças dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

"O Exército paquistanês e a população civil estão recebendo um duro castigo. Hoje em dia há mais fatos (violentos) aqui que no Afeganistão ou no Iraque. O Paquistão foi o que mais sofreu em termos de perdas humanas e econômicas devido ao extremismo violento, mas isto não minou nosso compromisso de seguir lutando", afirmou.

Kiyani pediu mais fundos para seguir com este trabalho, afirmou que as forças de segurança paquistanesas precisam entre seis meses e um ano para consolidar as frentes abertas e insistiu aos EUA para que ofereçam "um plano global".

"É preciso saber reconciliar os interesses no curto e no longo prazo. Este conflito (regional) será mais longo que a Segunda Guerra Mundial", previu Kiyani, quem acrescentou que para o Paquistão, "Afeganistão é o passado, o presente e o futuro. Talvez todos os países não tenham a mesma perspectiva".

"Temos que nos movimentar na mesma direção (que a Otan e os EUA) e seguir melhorando a coordenação", reforçou.

O chefe do Exército paquistanês fez as declarações após uma visita a Bruxelas, onde participou da conferência com comandantes da Otan.

Em 28 de janeiro foi realizada a Conferência de Londres sobre o Afeganistão, na qual representantes de 60 países definiram as bases para devolver o controle da segurança às forças afegãs e abrir um processo de reconciliação nacional que inclua um diálogo com os talibãs dispostos a abandonar a violência. EFE igb/dm

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