Kirchner e Lula se reúnem para tentar amenizar conflitos comerciais

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, chega nesta quarta-feira a Brasília para um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em meio a novas divergências comerciais entre os dois países, principais sócios do Mercosul.

BBC Brasil |

As diferenças são resultado de medidas burocráticas adotadas pelos dois países que acarretam em um atraso no desembarque de produtos no mercado vizinho, geram prejuízos para produtores e exportadores e já afetaram o volume do comércio bilateral.

Segundo o ministro da Economia da Argentina, Amado Boudou, 6% das exportações brasileiras teriam sido atingidas com as chamadas Licenças Não Automáticas (LNA), adotadas pela Argentina em outubro de 2008, em meio à crise internacional.

Para o Brasil, este impacto é maior e varia entre 14% e 17%, se forem somadas todas as recentes iniciativas argentinas, incluindo medidas tidas como antidumping.

Exportações

Em outubro, o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Mauro Vieira, divulgou uma nota na qual afirmou que as exportações do Brasil para a Argentina haviam caído 43% no primeiro semestre de 2009, comparado com o mesmo período do ano passado.

Vieira afirmou ainda que, no mesmo período, as exportações da Argentina para o Brasil caíram 19%.

Apesar da queda das exportações e da desvalorização do peso frente ao real, a Argentina registrou, em outubro, o quarto mês consecutivo de déficit comercial com o Brasil, segundo a consultoria Abeceb.

De acordo com a mesma consultoria, até outubro deste ano, o comércio bilateral foi de US$ 18,5 bilhões - 30% menor ao mesmo período de 2008.

LNA

Alguns assessores do governo brasileiro afirmam que as LNAs estão previstas na Organização Mundial de Comércio (OMC), mas desde que não superem os sessenta dias de prazo, o que não estaria ocorrendo, como afirmou Vieira na mesma nota.

Um assessor do governo brasileiro disse à BBC Brasil que muitos empresários brasileiros reclamam que seus produtos estão parados (na alfândega argentina) "há 180 dias".

Em contrapartida, Cristina Kirchner reclamou contra as LNAs imposta pelo Brasil a produtos argentinos em outubro.

"Isso jamais tinha ocorrido, que mercadorias perecíveis ficassem paradas na fila para entrar no Brasil", afirmou. Cristina disse que falará sobre o assunto com o presidente Lula. "Sim, conversarei sobre isso com Lula", disse.

China

O especialista Raul Ochoa, professor de comércio internacional da Universidade de Buenos Aires (UBA), disse à BBC Brasil que os setores brasileiros afetados com as LNAs da Argentina são calçados, têxtil, móveis, brinquedos, autopeças, manufaturados de plástico e borracha e aparelhos elétricos e eletrônicos.

"Estes itens atingidos tiveram uma queda de 52% (nas exportações para Argentina até outubro) na comparação com 2008", disse Ochoa. "O Brasil alega, e com razão, que com essa medida, houve um desvio de comércio que beneficiou a China no mercado argentino".

O especialista afirma ainda que as exportações chinesas destes produtos para a Argentina, caíram menos do que as brasileiras e registraram queda de 39%.

Outros impostos

Ochoa disse que foi aprovada ainda uma lei, na Argentina, que aumenta impostos internos e que afetará também as vendas de produtos eletrônicos fabricados no Brasil, como celulares.

Ao mesmo tempo, Ochoa ressaltou que as LNAs implementadas pelo Brasil afetam as vendas argentinas de farinha de trigo, vinhos, passas de uva, azeitonas, azeites de oliva, geleias, pescados e auto-peças.

"São produtos que fazem parte, principalmente, da lista de compras de Natal e representam cerca de 20% das exportações argentinas (para o Brasil)", afirmou Ochoa.

Para ele, foi o mercado brasileiro que salvou, por exemplo, a produção argentina de automóveis (devido às vendas para o Brasil).

Segundo ele, a Argentina voltou a acumular déficit comercial com o Brasil por problemas próprios, como falta de volumes e diversificação da sua pauta exportadora.

A expectativa entre industriais e assessores do governo brasileiro é de que a Argentina possa "rever" as LNA antes de 2010, quando a previsão é de crescimento econômico nos dois países.

O analista Félix Peña, professor da Universidade Tres de Fevereiro, afirmou que existem hoje pelo menos duas falhas nesta relação bilateral: "medidas do acordo do Mercosul que precisam de rejuvenescimento e maior confiança mútua entre os dois países".

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