Karzai chora ao pedir reconciliação dos afegãos

Presidente afegão disse não querer que filho cresça fora do país para fugir da violência

Reuters |

O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, chorou nesta terça-feira ao pedir que o povo "caia em si" e se apresse na busca pela paz, sob pena de que a próxima geração fuja para o exterior e perca sua identidade afegã.

Os afegãos precisam viver e trabalhar no país e pelo país, disse Karzai, ao identificar pela primeira vez alguns dos membros de um conselho de paz destinado a buscar uma solução pacífica para o conflito contra a milícia islâmica Taliban.

AP
O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, durante discurso

"Não quero que Mirwais, meu filho, seja um estrangeiro, não quero isso. Quero que Mirwais seja afegão", disse Karzai, que passou anos exilado no Paquistão durante a ocupação soviética, na década de 1980, e o regime Taliban, nos anos 90.

"Portanto, caiam em si... Vocês estão testemunhando o que está acontecendo no nosso solo, e só por meio dos nossos esforços esta pátria poderá ser nossa", acrescentou ele, sendo intensamente aplaudido durante um evento numa escola de Cabul, por ocasião do Dia Internacional da Alfabetização.

Violência

Este é o ano mais sangrento no Afeganistão desde a invasão norte-americana de 2001. Apesar da presença de quase 150 mil soldados estrangeiros no país muitos têm a sensação de que só o diálogo -- ao invés da força militar -- poderá levar à paz.

Em junho, Karzai convocou uma "jirga" (assembleia tribal tradicional) para discutir a paz, mas o Taliban rejeitou as negociações, exigindo como condição para isso a retirada de todas as forças estrangeiras.
O conselho de paz criado pela "jirga" terá mais de 68 membros, inclusive dois ex-presidentes, e pelo menos dois ex-membros do Taliban, além de clérigos e mulheres. Seus membros foram definidos após deliberações envolvendo líderes tribais e outros dirigentes.
Karzai perguntou às mulheres na plateia se elas apoiam as negociações, já que algumas ativistas têm manifestado a preocupação de que um eventual acordo com o Taliban possa reverter conquistas femininas no campo da educação, trabalho e liberdade de ir e vir. Dezenas delas levantaram a mão em sinal de apoio.

Negociação com Taliban

O plano do governo, apoiado pelos líderes tribais na "jirga" de junho, envolve oferta de dinheiro e empregos para retirar militantes do campo de batalha, paralelamente à busca da reconciliação com os líderes do Taliban, os quais receberiam oferta de asilo em países islâmicos e teriam seus nomes retirados de uma lista negra da ONU.

Nações doadoras de ajuda prometem dezenas de milhões de dólares para serem distribuídos a militantes do Taliban que desertarem do movimento.

Os EUA pretendem iniciar uma retirada em julho de 2011, e Karzai espera que a partir de 2014 as forças afegãs substituam totalmente as forças estrangeiras no controle da segurança.

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