Karadzic teme ser morto pelos EUA enquanto é julgado em Haia

Haia, 1 ago (EFE).- O ex-líder servo-bósnio Radovan Karadzic disse hoje que teme ser morto pelos Estados Unidos enquanto é julgado pelo Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia (TPII) e afirma que é impossível um processo justo.

EFE |

Segundo ele, "ninguém na Terra" acredita em sua absolvição devido ao que chamou de "caça às bruxas" da mídia em seu caso.

Essas declarações constam em um documento de quatro páginas que ele tentou ler ontem, sem sucesso, durante seu primeiro comparecimento perante os juízes e que hoje foi divulgado pelo TPII, que tem sede em Haia.

No documento, Karadzic se considera vítima de uma série de "irregularidades" por parte dos meios de comunicação bósnios e internacionais, pela Procuradoria e pela forma como foi detido e, sobretudo, por parte dos EUA, com quem afirma ter estabelecido um pacto que garantia sua imunidade.

O suposto criminoso de guerra, de 63 anos, acusa os EUA de tentarem matá-lo para evitar uma revelação de que, em 1996, Washington lhe ofereceu um pacto, em que o servo-bósnio teria que desaparecer da vida pública para não pôr em perigo os Acordos de Dayton, que puseram fim à guerra da Bósnia em 1995.

Em troca, ele não seria julgado pelo TPII, que ontem negou qualquer tipo de vinculação com este suposto acordo, também desmentido por Washington.

"Eu deveria me retirar não somente da vida política, mas também dos escritórios do partido e desaparecer completamente da esfera pública, não dar entrevistas nem publicar trabalhos literários, em uma palavra, permanecer o suficientemente invisível para que os Acordos de Dayton se aplicassem totalmente", diz Karadzic no documento.

O ex-líder servo-bósnio afirma também que o então mediador americano Richard Holbrooke manifestou em nome dos EUA que ele "não seria julgado perante este Tribunal e que deveria entender que durante um tempo haveria uma forte retórica" contra ele, para que seus seguidores "não pudessem romper a aplicação dos acordos".

Karadzic explica que ele acatou sua parte do pacto "desde o primeiro dia", mas que os EUA, ao verem-se incapazes de cumprir o prometido, optaram por "liquidá-lo" para que não revelasse a existência do trato.

"Está claro que, sendo incapaz de cumprir suas promessas (...), (Holbrooke) passou ao plano B: a liquidação de Radovan Karadzic", diz a nota, dirigida aos juízes como documento para sua defesa.

Karadzic sente-se em perigo também em Haia porque considera que essa ameaça de morte não é só algo do passado, mas é hoje "ainda mais fresca e forte".

"Desconheço o tamanho do braço do senhor Holbrooke (...) ou se esse braço pode alcançar-me aqui", diz Karadzic, que também afirma que o citado pacto "se tornou uma fonte de grande perigo" para sua vida, a segurança de sua família e de seus amigos.

Além dos EUA, Karadzic sente-se vítima de uma "caça às bruxas" que, segundo ele, teve início quando a mídia muçulmana começou a lhe chamar de "criminoso de guerra" -"inclusive antes de começar o conflito armado" e quando "só havia vítimas sérvias"- atitude que, segundo ele, foi seguida pela imprensa internacional.

Karadzic está convencido de que essa campanha, da qual afirma que não poderia se defender, tornou "inimaginável" a sua absolvição.

Não queria ir a Haia porque tinha certeza de que "não teria as condições de um julgamento justo, especialmente quando um dos procuradores disse em público que eu teria certamente uma condenação de prisão perpétua", explica, sem especificar o nome do procurador, embora tenha feito referência a uma mulher.

Após afirmar que ficou seqüestrado por três dias em Belgrado antes de sua detenção ter se tornado pública, Karadzic denunciou o que considera a falta de tempo para estudar a acusação que a Procuradoria prepara.

No texto, ele se mostra preocupado pela intenção de acelerar seu processo, no qual é acusado de crimes de guerra, genocídio e crimes contra a humanidade durante a guerra da Bósnia (1992-1995), entre os que se destacam o massacre de Srebrenica e o ataque a Sarajevo. EFE mr/ab/rr

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