Karadzic revela acordo com EUA e afirma ter sido seqüestrado em Belgrado

Haia, 31 jul (EFE).- O ex-líder servo-bósnio Radovan Karadzic compareceu hoje, sem advogado, ao Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia (TPII) e revelou um suposto acordo com os Estados Unidos para obter imunidade, enquanto denunciou seu seqüestro em Belgrado para ser levado a Haia.

EFE |

"Em Belgrado fui mantido de forma irregular, fiquei seqüestrado por cerca de três dias por civis que não conheço", afirmou Karadzic para acrescentar que agora também temia por sua vida.

Em seu primeiro comparecimento diante do TPII ele afirmou: ao ser detido em Belgrado "não leram meus direitos nem recebi acesso ao telefone para que meus amigos e parentes não tivessem que me procurar em hospitais ou no necrotério".

Antes de deixar continuar com a denúncia do que Karadzic chamou de "irregularidades" no momento de sua detenção, o juiz Alphons Orie o convidou a apresentar por escrito estas questões, afirmando que a primeira audiência oral deve se concentrar especialmente em temas relacionados às acusações.

Karadzic também fez referência a um suposto pacto que, segundo ele, foi oferecido pelo ex-assistente do secretário de Estado durante o Governo de Bill Clinton - Richard Holbrooke - no final da guerra da Bósnia (1992-1995).

Holbrooke era então o mediador americano no Pacto de Dayton, que em 1995 acabou com a guerra na Bósnia.

Esta mesma semana, o ex-ministro de Assuntos Exteriores da Bósnia, Mohamed Sacirbej, disse que Karadzic chegou a um acordo em 1996 com os EUA por meio do qual seriam retiradas as acusações de genocídio e crimes contra a humanidade em troca de abandonar a política.

A ex-procuradora-geral do TPII, Carla del Ponte, também expressou no passado sua preocupação diante de informações que falavam da existência deste pacto, que sempre foi negado por Holbrooke.

Por causa da recusa do juiz de dar prosseguimento a este tema, Karadzic, ao qual o TPII acusa entre outras coisas do genocídio de quase 8 mil muçulmanos em Srebrenica, não teve hoje a oportunidade de esclarecer detalhes sobre este suposto acordo.

Somente disse que tinha se comprometido a sair da vida pública pelo resto de seus dias e que temia por sua vida agora que o tinham detido.

"Com isto quero demonstrar a razão de estar neste tribunal agora e não em 1996. Tinha perigo de ser liquidado", declarou o ex-líder servo-bósnio, que também afirmou ao juiz que não se sentia seguro estando preso em Haia.

"É uma questão de vida ou morte. Caso o senhor Holbrooke ainda queira minha morte, e aqui não há pena de morte, seu braço é suficientemente longo para me encontrar", declarou.

O juiz o tranqüilizou sobre o assunto e o aconselhou a apresentar ao registro do TPII todas as suas preocupações com sua segurança no centro de detenção de Haia.

Karadzic, que afirmou que sua saúde é "perfeita", compareceu hoje diante dos juízes sem advogado e com o propósito de se defender durante todo o seu julgamento, algo ao qual a Promotoria se opõe.

"Tenho um conselheiro legal, mas decidi representar a mim mesmo", declarou Karadzic após ser perguntado pelo juiz Alphons Orie se comparecer sozinho, sem advogado, era uma "escolha livre".

Como se esperava, Karadzic decidiu adiar por trinta dias sua declaração de culpabilidade ou inocência, o que fez com que os juízes fixassem um segundo comparecimento com o mesmo fim para o dia 29 de agosto às 14h15 (9h15, horário de Brasília).

Sem ter mais a longa barba e o cabelo sob os quais se escondia sob a identidade de um homem que praticava medicina alternativa - Dragan Dabic -, Karadzic escutou de forma tranqüila as onze acusações feitas contra ele.

O ex-líder servo-bósnio enfrenta, entre outras coisas, as acusações de genocídio, crimes de guerra e contra a humanidade. EFE mr/fal

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