O ex-chefe político dos sérvios da Bósnia Radovan Karadzic divulgou nesta sexta-feira uma moção por escrito em que afirma não acreditar que terá um julgamento justo e onde reitera a acusação feita na véspera em sua primeira aparição diante do TPI, segundo a qual ele teria feito um acordo secreto com Richard Holbrooke, negociador americano dos acordos de Dayton que colocaram fim à guerra da Bósnia (1992-1995).

Segundo analistas como Pierre Hazan, especialista do TPI, Karadzic vai tentar fazer de seu processo uma tribuna política e acusar os ocidentais pela responsabilidade de sua história, segundo especialistas.

"Não imagino que sua defesa seja outra coisa senão política. Ele não pode se defender no nível jurídico", declarou.

O ex-dirigente bósnio sérvio insistiu em seu texto que, em troca de sua retirada total da vida pública, "Holbrooke prometeu em nome dos EUA que eu não seria julgado neste tribunal".

"Incapaz de honrar com seu compromisso assumido em nome dos EUA, ele passou ao plano B - a liquidação de Radovan Karadzic", acrescentou Karadzic.

Holbrooke negou quinta-feira, como já havia feito anteriormente, ter prometido qualquer proteção a Radovan Karadzic. Ele disse que não tê-lo detido foi um "terrível erro" dos ocidentais.

"Karadzic sempre disse que se fosse preso teria coisas a dizer sobre promessas feitas pelos ocidentais em torno dos acordos de paz", lembrou Florence Hartmann, ex-porta-voz do ex-procurador do TPI Carla Del Ponte, que pediu provas.

A linha defendida pelo ex-dirigente sérvio bósnio pretende explicar que, apesar de um mandado de prisão internacional por genocídio, ele conseguiu viver até 1996 muito bem em Pale, reduto dos sérvios da Bósnia.

Segundo Pierre Hazan, os ocidentais não têm muito a temer das "revelações" de Radovan Karadzic.

Os EUA, a Grã-Bretanha e a França, envolvidos na época nos esforços de estabilização da Bósnia, diziam que sua prisão só deve causar problemas e queriam proteger suas tropas.

"Em Dayton, decidimos que as tropas teriam a possibilidade de deter os criminosos de guerra, mas que elas não seriam obrigadas. Não havia acordo secreto, mas é verdade que não tinha intenção real de detê-lo", continuou.

Para o professor de direito internacional da Universidade de Amsterdam Jann Kleffner, Karadzic se estenderá amplamente nos próximos meses sobre o acordo com o ocidente, mas enquanto ele não apresentar a prova deste acordo, não terá importância nenhuma no processo.

"Em resumo, ele está tentando salvar sua honra. Não há provavelmente grande coisa a ganhar neste processo. Ele está se dirigindo a um certo público sérvio, ele quer se fazer passar por vítima", acrescentou.

Radovan Karadzic já anunciou sua intenção de se defender sozinho durante todo o processo.

Os especialistas acreditam que, assim como Slobodan Milosevic, Karadzic tentará chamar Richard Holbrooke e os ex-chefes de Estado e governo americanos, britânicos e franceses a testemunhar.

"Não acho que ele conseguirá. Holbrooke pode se ver tentado a testemunhar para dar sua versão dos fatos, mas acho que ele fará isso se o próprio Karadzic pedir a ele", Pierre Hazan.

Os EUA sempre negaram ter prometido a liberdade de Radovan Karadzic em troca de sua retirada, como a França que havia obtido pouco tempo antes EM Dayton a liberação de dois de seus pilotos capturados pelos sérvios e bósnios.

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