Karadzic denuncia irregularidades em sua prisão e fará sua defesa no TPI

O ex-chefe político dos sérvios da Bósnia, Radovan Karadzic, denunciou irregularidades em sua prisão e pediu ao juiz um prazo de 30 dias para se culpado ou inocente nesta quinta-feira em sua primeira audiência no Tribunal Penal Internacional (TPI) para a ex-Iugoslávia, ante o qual confirmou sua decisão de assumir a própria defesa.

AFP |

No dia seguinte a sua detenção em Haia, Karadzic também reiterou afirmações de sua família sobre um acordo secreto concluído em 1995 com os Estados Unidos, segundo o qual ele desapareceria da vida pública para não ser levado ante o TPI.

Longe da imagem de guru de longos cabelos e barba branca de sua vida clandestina, o ex-líder sérvio-bósnio apareceu diante do juiz holandês Alphons Orie de terno alinhado e cabelo curto.

Com ar combativo, assim que se pronuniou, pediu para ser beneficiado do prazo legal de 30 dias antes de se declarar culpado ou inocente das acusações de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade por seu papel durante a guerra da Bósnia (1992-1995).

Questionado sobre a ausência de qualquer advogado ao seu lado, ele delarou: "Tenho um conselheiro invisível. Quero assumir minha defesa sozinho durante todo o processo".

No fim da audiência, Karadzic se lançou num discurso confuso, afirmando ter sido "seqüestrado" por desconhecidos e ter sido mantido em cativeiro durante três dias. "Vocês foram mal informados sobre a data da minha prisão. Há irregularidades sobre minha chegada aqui", denunciou.

"Fiquei seqüestrado durante três dias", reiterou, afirmando ter sido mantido em cativeiro em um local desconhecido e não ter sido informado de seus direitos.

O governo sérvio já adiantou que não responderá às acusações feitas por Karadzic. De acordo com a justiça sérvia, a detenção do ex-líder político aconteceu no dia 21 de julho. No entanto, ele disse ter sido preso no dia 18.

Radovan Karadzic, 63 anos, também repetiu diante do TPI afirmações de sua família sobre um acordo secreto concluído com o negociador americano Richard Holbrooke por ocasião da assinatura dos acordos de Dayton, em novembro de 1995, pondo um fim à guerra na Bósnia em troca de sua retirada da vida pública.

"O acordo estipulava que eu me retiraria da vida pública, e até da vida literária, e que em troca os Estados Unidos cumpririam com suas obrigações", explicou, sem entrar em detalhes sobre estas supostas obrigações.

Holbrooke "falava em nome dos Estados Unidos da América", lembrou.

A família de Karadzic afirmou diversas vezes que o prometido pelo negociador americano era que o líder sérvio-bósnio não seria entregue ao TPI se saísse totalmente da vida pública e política.

Florence Hartmann, conselheira e porta-voz da ex-procuradora do TPI Carla del Ponte, disse à AFP que antes de 1997, os soldados da Otan na Bósnia não fizeram nada para prender Karadzic, que vivia tranqüilamente em seu feudo de Pale.

Os Estados Unidos semprte negaram a existência de qualquer acordo secreto com Karadzic.

Nesta quinta-feira, o juiz enumerou as 11 acusações de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade contra Karadzic por seu papel na guerra da Bósnia (1992-1995), que deixou mais de 100.000 mortos.

Radovan Karadzic é considerado o cérebro da "limpeza étnica" contra os muçulmanos e croatas durante a guerra da Bósnia.

Um grupo de mulheres que sobreviveram à matança de Srebrenica acompanhou pela televisão a audiência com Karadzic.

"Vejam só! Fez o que quis fazer e agora sorri", criticou Sabra Mujic, de 48 anos, que perdeu seu marido na matança. "Que tipo de homem é esse?", acrescenta.

"Queria que nos deixassem entrar no tribunal para interrogá-lo olhos nos olhos", declarou ainda.

"Karadzic está dando um show", criticou Kada Hotic, outra vítima de Srebrenica. "Ele nos tirou tudo, nossos filhos, nossos maridos. E vai fazer teatro para o mundo todo agora", concluiu.

axr/yw

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