Inimigo dos Estados Unidos durante décadas, o líbio Muammar Kadhafi se firma cada vez mais como um interlocutor complicado, mas imprescindível para os ocidentais.

Nascido, segundo sua própria lenda, em uma tenda beduína no deserto de Syrte, em 1942, o coronel Kadhafi, filho de um camponês da tribo de Gaddafa, recebeu uma rigorosa educação religiosa antes de se alistar no Exército, em 1965.

Ele tinha 27 anos quando derrubou, sem que nenhuma gota de sangue fosse derramada, o rei Idriss, no dia 1o. de setembro de 1969.

Em 1977, ele proclamou a "Jamahiriya", que definiu como um "Estado das massas" que governa através de comitês populares eleitos, e se atribuiu o título de "Guia da Revolução".

Os ocidentais e também os árabes estranharam seu estilo de vida, suas roupas tradicionais e sua maneira imprevisível de exercer seu poder sobre esta imensa e rica nação petroleira pouco povoada.

Kadhafi gosta de receber seus hóspedes sob sua tenda no deserto ou no pátio do quartel Bab El Azizia, no centro de Trípoli, bombardeado em 1986 pelos americanos.

Ele é conhecido por deixar dirigentes estrangeiros e jornalistas esperar durante horas, até dias. Mas quando finalmente abre a porta de sua tenda, a audiência costuma durar muito tempo.

Sedutor, ele aprecia a companhia das mulheres. Ele toma suas decisões em seus escritórios de Trípoli ou Syrte, também sob uma tenda, às vezes montada no deserto, protegida por mulheres soldados, suas "amazonas". Kadhafi não come muito, e bebe principalmente leite de camelo.

Teatral, ele divertiu e assustou o mundo com declarações escandalosas críticas incendiárias, emitindo teorias muito peculiares sobre a história e sobre os homens.

Durante uma cúpula árabe, em 1988, ele apareceu com uma luva branca na mão direita. Ele explicou que não queria se sujar ao "apertar as mãos sujas de sangue" de alguns dirigentes.

Para ele, a "Jamariyah", ou o poder das massas, é a única solução para a humanidade. Recentemente, para lutar contra a corrupção que assola seu país, decidiu suprimir a administração e distribuir diretamente ao povo os recursos procedentes do petróleo.

Ele costuma ironizar o sistema eleitoral e afirma que a democracia não pode ser estabelecida pelas urnas. Para ele, "as eleições não passam de uma palhaçada".

Nos anos 90, Kadhafi, enfraquecido no cenário mundial e decepcionado com seus parceiros árabes, se virou para o continente negro e defendeu a criação dos "Estados Unidos da África".

Tratado durante décadas como o patrão de um Estado "terrorista", ele decidiu se reconciliar com o Ocidente.

Em 2003, para a surpresa do mundo inteiro, anunciou o desmantelamento de todos seus programas secretos de armamento. Ele reconheceu em seguida a responsabilidade de seu país nos atentados de Lockerbie (270 mortos em 1988) e no Níger (170 mortos em 1989), e pagou compensações financeiras às famílias das vítimas.

Mais recentemente, ele conseguiu uma importante vitória política sobre a Itália ao obter de Roma um pedido formal de desculpas pela colonização, acompanhado por uma indenização de cinco bilhões de dólares.

bur/yw

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