Justiça: ligeiras e pesadas

Graças a Deus! Corrijo-me rápido. Graças à sabedoria dos homens e ao bom senso dos juízes.

BBC Brasil |

Ponto de exclamação. Ficou finalmente provado, de acordo com as leis em vigor neste país, que nem a Rainha Elizabeth nem o Duque de Edimburgo mandaram - juntos ou separados - matar Diana, a princesa de Gales, juntamente com seu amante, Dodi Fayed, num túnel parisiense numa madrugada de 1997.

O veredicto foi de que houve morte ilegal no sentido de morte por negligência. Negligência mortífera do alcoolizado motorista francês Henri Paul e dos fotógrafos insistentes que, em louca disparada, perseguiam numa madrugada da cidade-luz a Mercedes na qual o casal quase que literalmente voava para seu ninho de amor, nas cercanias dos - quanta ironia! - Campos Elíseos.

Voaram, isso sim, para a Eternidade, com suas vastas asas que só os anjos enamorados têm e delas fazem uso em situação especialíssima, como, por exemplo, partir desta para melhor.

Tenho pena de Mohammed al-Fayed, pai daquele que poderia ter sido, mas nunca foi noivo, de Diana. Mohammed al-Fayed lutou durante décadas como um leão para obter passaporte britânico.

As autoridades competentes britânicas, no entanto, não costumam regularizar a situação dos leões com antecedentes dúbios, mesmo no caso de possuírem fotogênica porte e juba, como no caso do multimilionário dono, entre outras coisas, da ex-elegante loja de departamentos, Harrod's, que já foi símbolo de luxo e bom gosto, mas agora é com certa vergonha que as pessoas por dentro da coisas carregam a sacola plástica verde-garrafa com letras douradas.

Passaram todos aqueles que acompanham os passos altivos e compassos graciosos da moda a frequentar o Harvey Nichols, logo ali do lado, carinhosamente conhecido, entre os por dentro das coisas, como Harvey Nicks, onde o decoro e a distinção não disparam em louca e alcoolizada correria por ruas de Paris.

Al-Fayed, tristonho, garante que o filho e a real amante foram assassinados a mando da Família Real, com ênfase no príncipe Phillip. A loja Harvey Nichols não se pronunciou a respeito. Não se mexe em time que está ganhando, pensaram, mas não disseram, seus donos.

**********
Por falar em alcoolizado. Outra coisa provada, embora não em juízo: muito água só faz bem para o organismo no caso da desidratação que se segue ao porre, ou seja, nos casos de ressaca.

Essa frescura de sair pelas ruas com garrafinha a colo ou tiracolo é simplesmente isso: frescura. Ninguém precisa, a não ser no caso já estipulado, de um mínimo de oito copos de água por dia para manter a saúde. Mito, lenda urbana. Quem o diz são novas pesquisas.

O que uma pessoa normal - eu, você - bebe em matéria de líquidos, do cafezinho ao chá, sem esquecer do guaraná ou refresco de groselha, dá perfeitamente para o gasto. A nova pesquisa vem da Universidade Pensilvânia. Quem debocha desses tolos com garrafinha de água para cima e para baixo, aproveita logo. Pesquisa é como mulher e bonde: vem sempre outra atrás.

*********
Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como "o Lamarca do nanquim".

Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como "o subversivo da caneta Pilot", houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem - e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis).

Pagaram uma miséria, os militares de então. O que agora, uns 30 anos mais tarde, foi devidamente corrigido. Mas corrigido que não é brincadeira. Corrigido para valer. Corrigido como não está no gibi. Ou como não está nos clássicos do humorismo da esquerda engajada feito os Zeróis, os Menininhos Maluquinhos, a turma do Pererê, o Flicts, a Supermãe, as anedotas de salão em brochura.

No spoonerism (todos ao dicionário) clássico de Millôr Fernandes: "A justiça farda mas não talha."

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG