Justiça argentina condena casal que roubou filha de desaparecidos da ditadura

Buenos Aires, 4 abr (EFE).- Um tribunal da Argentina sentenciou nesta sexta-feira penas de sete e oito anos de prisão a um casal acusado de roubar bebês durante a ditadura militar, no primeiro julgamento do país no qual uma filha de desaparecidos processa seus pais de criação.

EFE |

Além do casal, formado por Osvaldo Rivas, condenado a oito anos de prisão, e María Cristina Gómez Pinto, a sete anos, o juiz sentenciou a 10 anos o militar aposentado Enrique Berthier, que em 1978 entregou ao casal a filha dos desaparecidos, María Eugenia Sampallo Barragán.

As penas foram impostas sob as acusações de retenção e ocultação de uma menor de 10 anos e, no caso de Rivas e Berthier, a falsificação de documento público.

Nenhum dos três acusados quis se pronunciar antes de conhecer o veredicto do tribunal, circunstância lamentada pelo advogado de acusação, Tomás Ojea Quintana.

"Lamentamos que não tenham aproveitado a oportunidade dada pelo tribunal de se arrepender e, sobretudo, de fornecer informação acerca da origem de María Eugenia", disse o advogado.

Os réus são acusados dos crimes de subtração de menor, falsificação de documento público e supressão da identidade de Sampallo, que integra a lista dos 88 jovens aos quais as Avós da Praça de Maio conseguiram restituir a identidade.

María Eugenia, que atualmente tem 30 anos, tinha pedido na segunda-feira passada que os crimes atribuídos aos acusados fossem considerados de "lesa-humanidade" no julgamento, que começou em 19 de fevereiro.

Tanto a acusação particular como a Promotoria tinham solicitado uma condenação de 25 anos de prisão para o casal e o militar, acusado de ser quem arrancou María Eugenia dos braços de sua mãe biológica para entregá-la a Rivas e Gómez Pinto.

A defesa dos acusados pediu sua absolvição, alegando que "não podiam ter conhecimento" da origem da menina.

Filha dos desaparecidos Mirta Barragán e Leonardo Sampallo, a jovem, que agora tem 30 anos, foi registrada como filha legítima de seus pais de criação, com o nome de María Eugenia Violeta Rivas e com data de nascimento de 8 de maio de 1978.

Os seqüestradores revelaram a María Eugenia que não eram seus verdadeiros pais quando a menina tinha sete anos, mas ocultaram sua origem dando diversas versões, como que sua mãe tinha morrido em um acidente ou que era aeromoça e vivia na Europa.

Durante o julgamento, a jovem relatou os maus tratos aos quais era submetida durante sua infância, especialmente por parte da seqüestradora.

María Eugenia cortou seu vínculo com Rivas e Gómez Pinto em 1999, dois anos antes de conhecer sua verdadeira identidade graças a um exame de DNA que demonstrou que era filha do casal de desaparecidos e que tinha nascido em fevereiro de 1978, dois meses depois do seqüestro de seus pais.

As Avós da Praça de Maio, cujos advogados fazem a defesa de María Eugenia, calculam que em torno 500 filhos de desaparecidos foram roubados de seus pais quando estavam em cativeiro.

Segundo números oficiais, 18 mil pessoas desapareceram na Argentina durante a ditadura militar, embora as organizações de direitos humanos elevam o número para 30 mil. EFE cw/mac/fb

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