Júri decide que morte de Jean Charles não foi homicídio justificado

Pedro Alonso. Londres, 12 dez (EFE) - A morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, executado no metrô de Londres em 2005 por policiais que o confundiram com um terrorista suicida, não foi considerada homicídio justificado, segundo o veredicto emitido hoje pelo júri que analisou o caso. Após cinco dias de deliberações, o júri, formado por dez pessoas, decidiu por um veredicto aberto, depois que o juiz que dirigiu o inquérito público, Michael Wright, negou a opção de um veredicto de homicídio injustificado. Com essa instrução, o magistrado fechou a porta à possível acusação dos responsáveis pelo erro fatal. A outra opção que o júri tinha era um veredicto de homicídio justificado, a qual os jurados acabaram rejeitando. A família do brasileiro qualificou o inquérito público de encobrimento, mas admitiu que se tratava do melhor veredicto possível, enquanto a mãe do eletricista, Maria Otoni de Menezes, disse ter nascido de novo após saber a resolução do júri. O comissário-chefe interino da Scotland Yard, Paul Stephenson, aceitou a plena responsabilidade da Polícia Metropolitana de Londres (MET) no equívoco. A morte de Jean Charles foi uma tragédia. Era um homem inocente e devemos aceitar a plena responsabilidade por sua morte, disse Stephenson em rápida declaração à imprensa.

EFE |

O inquérito público, um processo civil realizado no Reino Unido em caso de mortes suspeitas, durou sete semanas e ocorreu no estádio de críquete de Oval, sul de Londres, perto da estação de metrô de Stockwell, onde Jean Charles foi morto, em 22 de julho de 2005.

O brasileiro, de 27 anos, recebeu oito tiros (sete na cabeça e um no ombro) disparados por agentes da brigada antiterrorista da Scotland Yard.

O jovem foi confundido com um dos autores dos atentados frustrados do dia anterior, que pretendiam ser uma cópia dos ataques de 7 de julho de 2005 na capital britânica, que terminaram com 56 mortos (entre elas as dos quatro terroristas suicidas).

No inquérito, um dos dois franco-atiradores que mataram o brasileiro, identificado só como "C12", alegou que gritaram "Polícia armada" antes de atirar, apesar de o júri ter rejeitado hoje essa versão, a qual contradiria várias testemunhas que prestaram depoimento no processo.

O júri também rejeitou que o eletricista tivesse se comportado de forma suspeita, como a Polícia assegurou na época, dando uma versão dos fatos que foi desmentida em muitos pontos pelas evidências.

Sobre isso, Harriet Wistrich, advogada da família de Jean Charles, pediu hoje que seja investigado um possível "perjúrio" a "certos agentes" que participaram da operação.

Em reação ao veredicto, a ministra de Interior britânica, Jacqui Smith, afirmou hoje que a morte do brasileiro foi uma "tragédia que causou uma grande comoção" e reiterou suas desculpas à família.

A Comissão de Queixas da Polícia (PCC, sigla em inglês), que supervisiona a atuação das forças da ordem, pediu hoje uma revisão da forma como a Polícia responde à ameaça do terrorismo suicida após a morte de Jean Charles.

O júri emitiu sua resolução após escutar as versões de uma centena de testemunhas que prestaram depoimento durante a investigação, que começou em 22 de setembro.

Entre as testemunhas convocadas a depor estão os dois agentes que atiraram em Jean Charles, identificados como "C2" e "C12".

Além disso, também prestou depoimento Cressida Dick, responsável direta pela operação que levou ao erro fatal, que foi absolvida por um júri anterior de qualquer culpa pessoal na morte do brasileiro, e, mais tarde, foi promovida.

No ano passado, a Polícia Metropolitana já foi declarada culpada por violar a Lei de Saúde e Segurança no Trabalho do Reino Unido, que obriga os agentes a garantir a segurança tanto dos agentes quanto de terceiros.

No entanto, a Promotoria britânica rejeitou processar algum agente de forma individual pelo fato, apesar de a família de Jean Charles ter pedido hoje a revisão do caso. EFE pa/db

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