Ángel Escamis Yangun (Mianmar) 10 mai (EFE).- A Junta Militar de Mianmar (antiga Birmânia) deu hoje o maior passo em direção à institucionalização do regime com a realização de um plebiscito nas áreas do país que não foram atingidas pelo ciclone Nargis e que escaparam da destruição.

Com um milhão e meio de pessoas ameaçadas por epidemias e sem comida e água potável desde o último final de semana, as seções eleitorais da maior parte do país abriram suas portas para que os birmaneses obedecessem a ordem dos generais de "cumprir com o dever de aprovar a Constituição do Estado".

Um grande número de pessoas fez fila para participar da votação nas regiões do centro, do norte e do sudeste de Mianmar que não foram atingidas pelo "Nargis".

A Junta militar, para quem a passagem do ciclone foi um "inconveniente", adiou para o dia 24 a realização do plebiscito em Yangun, a antiga capital, e no delta do rio Irrawaddy, as regiões mais atingidas pelo "Nargis", que deixou 3.335 mortos, 37.019 desaparecidos e quase 1,5 milhão de desabrigados, segundo as autoridades.

"Nós, os birmaneses, vamos votar, mas garanto que nosso voto não tem valor algum, é um passo para os generais se eternizarem no poder", disse à Agência Efe Thi, ex-oficial do Exército e ativista da oposição, que, por motivos de segurança, não revelou parte de seu nome.

O texto constitucional, vendido em quiosques por 1.200 kyats - equivalentes a US$ 1 no mercado negro e mais da metade do que um trabalhador ganha por dia - faz menção à "democracia", mas não a do tipo promovido nos países liberais.

Segundo fontes diplomáticas européias, Mianmar "não é um país com Exército, mas um Exército que tem um país" e que imporá uma Constituição que maquila o regime e o torna apresentável perante a comunidade internacional.

O plebiscito, precedido de propaganda sobre a obrigatoriedade do "sim" sob ameaça de punir por até três anos aqueles que votassem no não, chega em um momento pouco propício para a Junta Militar, decidida a evitar que a catástrofe no delta do rio Irrawaddy altere seu plano de se perpetuar no poder.

Uma semana após o desastre, a prioridade do Exército, que apenas na quarta-feira apareceu pela primeira vez para retirar árvores e postes caídos das ruas de Yangun, continua sendo a segurança durante o plebiscito.

"Os militares estão mais preocupados com uma nova onda de protestos pelo descontentamento que aumentam as dificuldades financeiras do povo do que com as necessidades das pessoas do delta, que nunca causaram problemas", destacou U Mya Than, expulso há dez anos do corpo docente da Universidade de Yangun por motivos políticos.

Desde o final de abril, pelo menos cem pessoas foram presas em Yangun por fazerem campanha contra a Constituição, que, entre outros pontos, contém um artigo que proíbe a líder da oposição e Nobel da Paz de 1991, Aung San Suu Kyi, de se apresentar como candidata às eleições que o regime planeja realizar em 2010 por ela ter se casado com um estrangeiro.

A Junta Militar, que deu várias demonstrações de indiferença diante das críticas da comunidade internacional, insiste que a distribuição da ajuda oferecida pela ONU e por diversos países para os desabrigados é um trabalho exclusivo de seu Exército, que tem poucos recursos e parca experiência em crises humanitárias da magnitude desta última.

A imprensa birmanesa, que pedem que a população denuncie as pessoas que criticarem a atuação do Governo na região arrasada, diz que a situação está prestes a ser resolvida pelos militares, e destacam que as visitas ao delta do primeiro-ministro de Mianmar, general Thein Shein, "reconfortam os desabrigados".

"Eu votarei 'sim', pois é o que disseram que devo fazer", declarou o funcionário municipal Hla Moe, de 39 anos, após receber dez ovos de galinha, "gentileza" das autoridades para que não haja outra surpresa parecida com a de 1990.

Naquele ano e contra as expectativas do regime, a Liga Nacional pela Democracia, de Suu Kyi, em prisão domiciliar desde 2003, venceu as eleições legislativas.

O resultado eleitoral nunca foi reconhecido pelos generais, que governam Mianmar desde 1962. EFE mfr/wr/fal

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