Junta Militar de Mianmar rejeita ajuda humanitária de navios americanos

Juan Campos Yangun, 21 mai (EFE).- A Junta Militar de Mianmar (antiga Birmânia) rejeitou hoje a ajuda humanitária que vários navios militares dos Estados Unidos têm preparada para as vítimas do ciclone Nargis, enquanto o país asiático aguarda a visita do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

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"Há questões referentes à assistência humanitária dos navios de guerra e helicópteros militares (dos Estados Unidos) que não são aceitáveis para o povo birmanês", afirma o jornal estatal "New Light of Myanmar", sem entrar em detalhes.

França e Reino Unido também têm navios ancorados em Mianmar com impedimentos similares para poder prestar assistência com rapidez às cerca de 2,5 milhões de pessoas atingidas pelo ciclone.

Estas limitações e outras impostas desde o primeiro dia à ajuda internacional pelo regime militar são a razão da viagem de Ban Ki-moon.

"Amanhã vou a Mianmar para mostrar o apoio da ONU ao povo birmanês", disse hoje em entrevista coletiva no aeroporto de Bangcoc o secretário-geral da ONU, que acrescentou que sua visita "tem como objetivo salvar vidas, e não fazer política".

"Após percorrer as áreas atingidas, terei uma reunião com altos funcionários, incluindo o general Than Shwe (presidente do Conselho de Estado para a Paz e o Desenvolvimento, nome oficial da Junta Militar desde 1997)", acrescentou o secretário-geral das Nações Unidas.

O próprio Ban revelou, no último dia 11, em Nova York, que tinha tentado falar por telefone várias vezes com Than Shwe, mas que o presidente nunca atendera suas ligações.

O encontro com Than Shwe, que no domingo começou a visitar as áreas atingidas dando ordens e oferecendo consolo e promessas, após duas semanas ausente, está previsto para a próxima sexta-feira, mesmo dia em que Ban voltará a Bangcoc.

O subdiretor de Assistência Humanitária da ONU, o britânico John Holmes, que esteve em Mianmar entre domingo e terça-feira, afirmou que a reunião entre Ban e Than Shwe é "crucial" para o futuro da região.

Enquanto as agências humanitárias das Nações Unidas recebem um por um os vistos de entrada, e seu pessoal estrangeiro no país se vê confinado a Yangun, uma equipe médica da Tailândia percorre desde a segunda-feira a foz do rio Irrawaddy, a área mais atingida pelo ciclone.

Além disso, missões de China (50 pessoas), Laos (23) e Bangladesh (34) entraram sem problemas no país.

Em 25 de maio, Ban Ki-moon voltará a Yangun para participar da conferência organizada para que a ONU e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) coordenem a assistência humanitária nos locais afetados, cuja realização foi motivo de polêmica dentro da União Européia (UE), que não foi informada a seu respeito.

Enquanto Dinamarca e Holanda consideram a possibilidade de enviar delegações de alto nível, e não descartam a presença de seus respectivos ministros, outros membros da UE defendem o envio a Yangun de representação de baixo nível.

As autoridades birmanesas concedem aos membros das delegações da UE vistos de permanência no país por apenas dois dias, exclusivos para assistir à reunião.

Na segunda-feira, a Junta Militar birmanesa nomeou a Asean como coordenadora oficial das operações humanitárias na região, e disse que toda a ajuda humanitária deverá passar pelo bloco regional.

Além de Mianmar, integram a Asean Brunei, Camboja, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Cingapura, Tailândia e Vietnã.

O ciclone "Nargis" atravessou o sul de Mianmar entre os dias 2 e 3 de maio, e causou 77.738 mortes, deixando ainda 55.917 desaparecidos e cerca de 2,5 milhões de desabrigados.

A imprensa estatal, por sua vez, mostra uma situação sob controle, na qual os necessitados são atendidos e é planejada a recuperação das áreas destruídas, seguindo a orientação do Ministério de Informação, para que se concentre nas operações de reconstrução, e evite falar sobre a destruição.

Os jornais também não informam que, 18 dias depois da passagem do ciclone, mais da metade dos atingidos ainda não recebeu ajuda humanitária, nem mencionam as pessoas que continuam amparadas em pagodes e colégios.

A imprensa oficial também omite as denúncias de autoridades se apropriando de parte dos bens doados pela comunidade internacional para ficar com eles ou vendê-los, agora que os preços dispararam devido à catástrofe e à inflação. EFE csm/ev/gs

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