Junta Militar de Mianmar rejeita ajuda de voluntários birmaneses após ciclone

Ángel Escamis Nasingoo (Mianmar), 13 mai (EFE) - Mesmo com a possibilidade de uma catástrofe humanitária, a Junta Militar que governa Mianmar (antiga Birmânia) continua rejeitando a ajuda de cidadãos birmaneses que tentam auxiliar as vítimas das regiões do país mais afetadas pelo ciclone Nargis.

EFE |

O Governo birmanês, criticado pelas Nações Unidas e pelos países ocidentais por criar obstáculos à entrada de ajuda externa, agora também impede a ação de médicos, enfermeiros e voluntários do próprio país que pretendem auxiliar os milhões de desabrigados que sofrem com doenças e com a falta de comida.

Em Nasingoo, um pequeno povoado situado próximo ao rio Irrawaddy, no sul de país, dois médicos birmaneses com mochilas nas costas visitam pequenas casas tentando não chamar a atenção para não serem repreendidos.

"Se nos encontrarem fazendo isso, teremos um problema sério", disse à Agência Efe Aye, um médico birmanês de 39 anos que, acompanhado pelo colega Zaw, tenta prestar ajuda ao povo.

Por iniciativa própria, e após o Ministério da Saúde Pública ter desprezado seus muitos pedidos de autorização para prestar socorro médico no delta do rio Irrawaddy, Aye e Zaw dedicam parte de seu tempo livre a visitar famílias com doentes e feridos.

"Além de muita disenteria, encontramos alguns casos de tifo e, como o período de incubação da infecção é de cerca de dez dias, tememos que aumentem rapidamente", diz Aye.

A pequena mochila que um deles leva às costas tem apenas alguns frascos de remédios, que já estão quase vazios.

Desde quinta-feira passada, os dois médicos já fizeram três viagens à região, porém acreditam que não poderão continuar seu trabalho devido ao aumento no controle de segurança.

Segundo os dois voluntários, o Governo desconfia dos médicos de alguns hospitais de Yangun e, por esse motivo, a ajuda só chega na região por meio de pessoas ligadas às Forças Armadas ou à Cruz Vermelha.

Fontes de uma organização internacional que presta socorro humanitário na região do delta indicaram à Efe que as listas com os nomes de birmaneses que podem ser contratados para ajudar na distribuição de ajuda são examinadas pelas autoridades em um processo que pode levar vários dias.

"Todas as organizações querem chegar à zona, mas as permissões não são concedidas", diz o representante de uma ONG com escritório em Yangun.

Algumas testemunhas afirmam que muitos mosteiros budistas, onde monges ajudam vítimas do ciclone, estão recebendo ordens para enviar as pessoas que estão sendo cuidadas para centros de desabrigados controlados pelo militares.

Segundo dados oficiais divulgados ontem pelo Governo militar, a passagem do ciclone "Nargis" já deixou 32 mil mortos e 30 mil desaparecidos.

Já as Nações Unidas estimam que o desastre pode ter causado 100 mil mortes, e que esse número pode aumentar muito caso a Junta Militar siga impedindo que a ajuda externa chegue ao país.

"É preciso recuperar também os arrozais, que são seu único meio de subsistência, e para isso é necessário muito dinheiro", explica Thet Thu, professor de engenharia agrícola de uma universidade local. EFE mfr/rr/gs

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