Junta militar birmanesa entreabre as portas para ajuda internacional

A junta militar de Mianmar parece estar cedendo e, nesta sexta-feira, entreabriu as portas à maciça ajuda internacional, sobretudo aquela enviada pelos Estados Unidos, que se destina a mais de um milhão de desabrigados pela passagem do ciclone Nargis.

AFP |

O país "prioriza a recepção de ajudas de urgência e faz valentes esforços para transportá-las sem demora por seus próprios trabalhadores para as zonas afetadas", declarou o Ministério das Relações Exteriores, em um texto publicado pelo jornal oficial "New Light of Myanmar".

A TV oficial birmanesa garantiu, hoje, que o país aceitará a ajuda de urgência dos Estados Unidos, anúncio este que foi confirmado e saudado pela Casa Branca.

Já a Cruz Vermelha informou que suas ações de assistência às populações afetadas pelo ciclone estão sendo realizadas "com sucesso", apesar das dificuldades burocráticas e de logística do país.

"Mantemos discussões com as autoridades (birmanesas) e, até agora, elas se mostraram muito cooperativas", destacou Michael Annear, da Federação Internacional de Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e da Meia Lua Vermelha.

Um avião da Cruz Vermelha aterrissou na quinta à noite, em Yangun, com cinco toneladas de equipamento de urgência. Um segundo carregamento deve chegar no sábado.

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU disse hoje que reiniciará seus vôos com ajuda humanitária a partir de sábado, algumas horas depois de ter anunciado sua suspensão por causa das condições "inaceitáveis" impostas pela junta militar.

O diretor do PMA para a Ásia, Tony Banbury, explicou que estava previsto supervisionar a distribuição da ajuda de 115 milhões de dólares às vítimas, embora tenha se mostrado cético quanto a isso.

"Preocupa-me que, por um lado, anunciemos o lançamento de uma operação de 115 milhões de dólares e, por outro, não possamos entregar 38 toneladas de biscoitos", comentou Banbury, referindo-se à carga de dois aviões que chegaram hoje a Yangun e que ainda não foi distribuída.

Os militares birmaneses pretendem administrar sozinhos as ajudas materiais e financeiras de milhões de euros prometidas pela comunidade internacional.

O governo francês anunciou o envio de um navio da Marinha carregado com 1.500 toneladas de produtos e materiais, que pode chegar "na quarta, ou quinta da próxima semana", disse seu chanceler, Bernard Kouchner.

Segundo o último balanço oficial provisório, o Nargis, que devastou amplas regiões do sul de Mianmar no fim de semana passado, deixou cerca de 23.000 mortos e mais de 42.000 desaparecidos. Outras estimativas, como a de um diplomata americano em Yangun, apontam mais de 100.000 mortos.

De Genebra, a ONU anunciou hoje ter feito um apelo à comunidade internacional para arrecadar um fundo de 187 milhões de dólares em ajuda para cerca de 1,5 milhão de desabrigados birmaneses.

Em uma entrevista coletiva nos EUA, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, também fez um forte apelo "para que se faça todo o possível para facilitar essa ajuda (...), é a própria sobrevivência das pessoas afetadas que está em jogo".

Uma fonte das Nações Unidas, que pediu para não ser identificada, disse à AFP que Ban Ki-moon continua sem conseguir entrar diretamente em contato com o chefe da junta birmanesa, o "generalíssimo" Than Shwe.

Apesar da catástrofe, os militares seguem com a organização de um referendo sobre uma nova Constituição, neste sábado. A consulta foi adiada para 24 de maio somente nos municípios mais afetados pelo ciclone.

burs-aud/tt

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