Junta Militar birmanesa condiciona ajuda da comunidade internacional

Juan Campos Yangun (Mianmar), 25 mai (EFE).- A Junta Militar de Mianmar (antiga Birmânia) condicionou hoje o acesso requisitado pelo países doadores para que as organizações humanitárias ajudem os 2,5 milhões de vítimas do ciclone Nargis, que arrasou o país no início do mês.

EFE |

Em seu discurso na conferência internacional realizada em Yangun com a presença do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, o primeiro-ministro birmanês, general Thein Sein, disse que a prioridade do Governo agora é a reconstrução e que a fase de assistência aos sobreviventes acabou.

"Meu Governo está disposto a aceitar aqueles grupos que estejam interessados na reabilitação e na reconstrução", declarou o general em um discurso no qual destacou a "eficaz resposta do Exército e das instituições estatais birmaneses" à catástrofe.

O general Sein disse que, até agora, Mianmar recebeu 3.200 toneladas de ajuda da comunidade internacional. Além disso, destacou que, atualmente, o país precisa de temporárias, sementes de arroz, adubos, fábricas de sal e navios de pesca.

A versão oficial birmanesa sobre a situação no delta do rio Irrawaddy é radicalmente diferente da mantida pela ONU, cujo subsecretário-geral para Assuntos Humanitários, John Holmes, garantiu que apenas 1 milhão de pessoas receberam comida, abrigo e remédios, passadas três semanas desde a passagem do ciclone pela região.

"Está claro que a fase de ajuda (...) continua sendo de emergência", afirmou Holmes.

O discurso do diplomata foi um dos mais duros contra a Junta Militar, que, segundo lembrou, se comprometeu a abrir as portas aos voluntários estrangeiros e à ajuda internacional.

"Acreditamos que a colocação em prática desta decisão será rápida e simples. Ainda há muito a fazer, dado o tempo que perdemos", frisou.

A ONU, a União Européia (UE) e os Estados Unidos exigiram da Junta Militar o acesso total dos voluntários estrangeiros à região do delta, onde a passagem do "Nargis" deixou 134 mil mortos e desaparecidos.

"Os analistas e trabalhadores experientes das organizações humanitárias, além das equipes de médicos dos países vizinhos, devem ter acesso ilimitado às áreas castigadas pelo desastre", declarou Ban Ki-moon.

Em seu discurso, o secretário-geral da ONU também disse que os trabalhos de ajuda aos desabrigados terão que durar "pelo menos seis meses, já que é preciso alimentar e cuidar daqueles que perderam tudo".

A Junta Militar birmanesa suspeita das intenções das potências ocidentais, particularmente dos EUA e da UE, que mantêm suas sanções econômicas a Mianmar em resposta à persistente violação dos direitos humanos no país.

Durante a conferência, a UE também exigiu da Junta Militar maior transparência na distribuição da ajuda e na avaliação dos danos materiais causados pelo ciclone, numa região pobre e quase sem infra-estrutura.

A UE se comprometeu a doar outros 17 milhões de euros após ter desembolsado 46 milhões de euros para custear a ajuda humanitária.

O regime birmanês calcula que precisará de US$ 11 bilhões de euros para a reconstrução do sul do país, enquanto a ONU solicitou US$ 201 milhões à comunidade de doadores para atender, durante os próximos três meses, às necessidades mais urgentes dos desabrigados.

"Até o momento, as contribuições chegam a cerca de 20% (do requisitado) e há compromissos no valor equivalente a outros 20%", disse o secretário-geral da ONU.

A maioria dos Governos dos países da UE optou por enviar seus embaixadores ao encontro, por causa do receio surgido pelo protagonismo assumido pela Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), disseram fontes diplomáticas européias.

Na semana passada, a Junta Militar designou a Asean como sua interlocutora e mediadora com os países ocidentais, que regularmente denunciam a falta de liberdade no país e pedem a libertação incondicional da Nobel da Paz de 1991 e líder do movimento democrático, Aung San Suu Kyi, em prisão domiciliar desde junho de 2003.

Após a catástrofe do "Nargis", Mianmar, que entrou na Asean em 1997, deu sinal verde ao envio de especialistas em gestão de emergências do bloco regional asiático, ao mesmo tempo em que vetava o acesso ao delta do resto dos voluntários estrangeiros.

"A Asean facilita a arquitetura diplomática", declarou à imprensa Surin Pitsuwan, secretário-geral da Asean, integrada por Brunei, Camboja, Cingapura, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Tailândia, Vietnã e Mianmar. EFE csm/wr/sc

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