Junta birmanesa mantém polêmico referendo constitucional

Aprovar a Constituição é uma obrigação nacional, reafirmou a junta militar birmanesa, que manteve para sábado na maior parte do país um polêmico referendo, apesar da destruição causada pelo ciclone Nargis e dos vários apelos pelo adiamento da votação.

AFP |

A formação política da opositora Aung San Suu Kyi, mantida em prisão domiciliar, pediu nesta sexta-feira que a junta adie o referendo para a instauração de uma nova Constituição, devido à tragédia no sul de Mianmar ocorrida há uma semana (65.000 mortos ou desaparecidos, de acordo com o último registro oficial).

Segundo a junta, a aprovação da Constituição abrirá caminho para "eleições multipartidárias" em 2010 e para uma "transferência de poder" progressiva para os civis, mas dissidentes consideram que o texto estabelece o contrário, reforçando a supremacia do Exército, no poder desde 1962.

"Não é o momento apropriado para realizar um referendo", declarou à AFP Nyan Win, porta-voz da Liga Nacional para a Democracia (LND) de Suu Kyi, premiada com o Prêmio Nobel da Paz.

Perguntada se a LND faria um apelo aos eleitores para rejeitarem a Constituição dos generais, Nyan Win respondeu: "não mudamos. Ainda pedimos que a população vote pelo 'não'".

A junta birmanesa adiou a votação para o dia 24 de maio em 47 cidades das regiões de Yangun e Irrawaddy, as mais afetadas pelo ciclone. Para todas as outras, ela foi mantida.

"Aprovar a Constituição do Estado é uma obrigação nacional de toda a população", era a manchete nesta sexta-feira do jornal New Light of Myanmar, controlado pelo regime militar.

"Vamos todos votar 'sim' pelo interesse nacional", conclamou o jornal.

Enquanto as redes de televisão internacionais continuam a divulgar imagens da destruição provocada pelo ciclone Nargis, a TV estatal birmanesa exibe constantemente um vídeo musical, com dançarinos vestindo uniformes coloridos, pedindo aos cidadãos o voto no "sim".

"Você tem 18 anos?", canta um homem. "Sim", responde uma mulher. "Eu vou votar".

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu aos generais birmaneses que dêem prioridade à "mobilização de todos os recursos disponíveis" para enfrentar a situação, provocada pelo Nargis, que deixou mais de um milhão de desabrigados.

Os ministros francês e britânico das Relações Exteriores Bernard Kouchner e David Miliband lamentaram "a surpreendente decisão" das autoridades birmanesas de manter o referendo e pediram à junta que suspenda o quanto antes "todas as restrições à distribuição de ajuda" aos afetados.

A oposição birmanesa foi excluída do processo de elaboração da Constituição que poderá tornar Suu Kyi inelegível, por um motivo controverso, seu casamento e seus dois filhos com um estrangeiro, o britânico Michael Aris, morto vítima de um câncer em 1999.

Suu Kyi, 62 anos, mantida em constante isolamento em sua residência de Yangun desde 2003, foi privada de liberdade durante a maior parte dos 18 últimos anos.

Para os birmaneses, o referendo de sábado será a primeira oportunidade de votar depois das eleições legislativas de maio de 1990 que foram vencidas com ampla vantagem pela LND. Os militares se recusaram a aceitar os resultados.

hla-ras/dm

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG