Julgamento do torturador-chefe do Khmer Vermelho entra em fase decisiva

Jordi Calvet. Phnom Penh, 30 mar (EFE).- O torturador-chefe do Khmer Vermelho, Kaing Guek Eav, conhecido como Duch, retornou hoje ao banco do tribunal internacional promovido pela ONU para ser julgado por crimes contra a humanidade, além de assassinato premeditado e tortura.

EFE |

O julgamento entrou em sua fase decisiva, na qual os magistrados, quatro cambojanos e três estrangeiros, tentarão esclarecer os fatos e determinar as responsabilidades do acusado após as duas vistas do processo ocorridas em fevereiro para validar testemunhas e provas.

Com o semblante sereno, Duch, de 66 anos, respondeu a um dos juízes quando este pediu que se identificasse e explicasse o uso dos diversos nomes falsos que utilizou ao longo de sua vida.

Kaing Guek Eav, que adotou o nome revolucionário de Duch quando se filiou ao Khmer Vermelho, foi o comandante da prisão de Tuol Sleng, em Phnom Penh. Nela, quase 15 mil pessoas foram interrogadas, torturadas e executadas, assim como no campo de extermínio de Chooeung Ek, a cerca de 15 quilômetros da capital.

Duch, o ex-Khmer Vermelho de menor patente a ser julgado neste tribunal, também dirigiu as prisões M-13 e M-99, nas selvas do noroeste do Camboja, durante a guerra anterior à vitória do grupo maoísta, em abril de 1975.

Os investigadores creem que quase 20 mil cambojanos morreram durante o período em que ficaram detidos nessas duas prisões.

A maior parte da sessão de hoje foi ocupada pela leitura dos fatos e dos testemunhos que foram recopilados pela investigação durante a instrução do caso, e que Duch acompanhou com atenção o tempo todo.

Defendido pelo magistrado francês François Roux e pelo advogado cambojano Kar Savuth, Duch enfrenta acusações de crimes contra a humanidade, violação da Convenção de Genebra, torturas e homicídio.

A porta-voz do tribunal, Helen Jarvis, destacou a importância do momento para o Camboja porque esta foi a "primeira vez em que foram lidas acusações contra um membro do Khmer Vermelho".

"Há muita informação sobre esse período, fatos e vítimas foram reconhecidos, mas ainda falta acertar as contas com os responsáveis", acrescentou Jarvis.

Pela primeira vez desde o início do julgamento, os cambojanos ocuparam os quase 500 assentos da sala do tribunal, cuja sessão de hoje foi retransmitida ao vivo por televisões e rádios nacionais.

Entre os presentes havia cerca de 60 vítimas que serão apresentadas pela acusação. O grupo ficou afastado da imprensa e do restante dos visitantes durante todo o tempo.

Dois deles, sobreviventes de Tuol Sleng, não conseguiram conter as lágrimas ao ver Duch novamente.

Segundo a psicóloga Judith Strasser, da organização Transcultural Psychosocial Organization, entidade que presta atendimento psicológico às vítimas, disse que elas estão encarando bem a situação.

"Vir aqui, estarem juntos e falar entre eles os ajuda", diz Strasser.

O Khmer Vermelho governou Camboja desde abril de 1975 até janeiro de 1979, período no qual 1,7 milhão de pessoas morreram, segundo uma pesquisa da Universidade de Yale (Estados Unidos).

"Minha família tinha me contado algumas coisas, mas até visitar Tuol Sleng, não poderia acreditar que cambojanos matassem outros cambojanos", explicou Khun Phien, um estudante da cidade de Kampot.

"(Duch) Tinha estudos, conhecimento, sabia idiomas. Não entendo como pôde fazer o que fez", disse Dina, um estudante de Direito que admitiu ter se enfurecido ao ver o torturador-chefe do Khmer Vermelho, um ex-professor de matemática.

"Fico feliz que os julgamentos prossigam porque, como cambojano, o que aconteceu em meu país me envergonha", acrescentou Dina, que não escondeu sua desconfiança diante dos membros cambojanos do tribunal e das tentativas do Governo de interferir nos trâmites judiciais.

Além de Duch, são julgados neste tribunal Nuon Chea, o ideólogo do regime e braço direito de Pol Pot; Khieu Samphan, chefe de Estado do Kampuchea Democrático (nome do Camboja entre 1975 e 1979); Ieng Sary, ex-ministro de Assuntos Exteriores; e a esposa do anterior, Ieng Thirith, ex-ministra de Assuntos Sociais.

Pol Pot morreu na selva cambojana em 1998 sem chegar a revelar os motivos que levaram o Khmer Vermelho a destruir o Camboja. EFE jcp/bba

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