Juiz ordena que júri ignore os protestos da família de Jean Charles

O juiz britânico que investiga a morte de Jean Charles de Menezes ordenou nesta sexta-feira que os membros do júri ignorem os protestos protagonizados por familiares da vítima.

AFP |

"O que fizeram foi errado e não deve ser levado em conta", afirmou o juiz Michael Wright. "Não é certo que se tente pressionar o júri e isso não deveria ter ocorrido", acrescentou, fazendo referências aos parentes de Jean Charles que protestaram na véspera, dia em que o júri do caso começou suas deliberações.

Três primos do eletricista morto por engano pela polícia londrina em 2005 se colocaram à frente do júri e mostraram camisetas com a inscrição "Seu direito legal de decidir um veredicto de morte ilegal".

Na terça-feira, Wright havia determinado que o júri só poderá optar por um veredicto determinando que a morte do brasileiro aconteceu devido a um "homicídio legal", o que poderá deixar sua sentença em aberto.

Isso significa que os 12 membros do júri - que durante várias semanas ouviram diversas evidências de erros cometidos pela polícia - não poderão decidir que Jean Charles foi assassinado pela Scotland Yard, como esperava a família do eletricista.

Wright, que começou nesta semana a resumir os depoimentos prestados desde o dia 22 de setembro por dezenas de testemunhas, afimou na corte que "não se justificava" uma sentença de "homicídio ilegal".

Jean Charles foi executado por policiais com sete tiros na cabeça na estação de metrô de Stockwell, sul de Londres, ao ser confundido com o terrorista Hussain Osman, um dia depois dos atentados fracassados contra o sistema de transportes londrino, e duas semanas após os ataques que deixaram 56 mortos e centenas de feridos na capital inglesa.

Policiais vestidos à paisana confundiram Jean Charles com Osman, seguindo-o na rua, entrando com ele em um ônibus e depois no metrô, onde o mataram dentro de um vagão, na frente de dezenas de passageiros.

Alguns dos policiais envolvidos na operação admitiram, pressionados pelas perguntas dos advogados da família do brasileiro, que sequer tiveram acesso a fotografias do suspeito que acreditavam estar perseguindo.

Foi só depois de matá-lo que receberam uma foto de Osman, segundo revelado no julgamento. E, apenas 24 horas depois, perceberam o erro cometido e a morte de um inocente.

Dos 65 agentes da Scotland Yard que prestaram depoimento na investigação judicial, 49 falaram protegidos por cortinas negras - entre eles, os dois agentes que atiraram contra Jean Charles no metrô, identificados apenas como Charlie 2 e Charlie 12, "os atiradores".

O inquérito público judicial sobre o caso - igual ao que foi realizado para esclarecer a morte da princesa Diana - não constitui um julgamento comum, já que não é um processo e, portanto, nenhuma condenação é pronunciada.

Este tipo de "investigação pública" - um procedimento jurídico específico da Inglaterra e de Gales- tem como objetivo determinar as causas de uma morte em circunstâncias violentas ou não explicadas.

Embora não resultem em uma condenação judicial, as conclusões do júri podem servir de base para outros passos legais, como reclamar que os culpados prestem contas ante à justiça se o júri tiver concluído que a morte foi um assassinato.

Até agora, nenhum policial, nem o ex-chefe da polícia de Londres, Ian Blair - que abandonou seu cargo na sexta-feira passada -, foi processado por este caso.

ame/gc/cn/ap

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