Nova York, 29 jun (EFE).- O juiz federal Denny Chin divulgou hoje a sentença máxima de 150 anos de prisão para o investidor Bernard Madoff, por ter cometido delitos extraordinariamente maléficos.

"Objetivamente falando, esta fraude é assombrosa. Durou mais de 20 anos. Temos que enviar a mensagem mais dura possível", indicou o juiz, para argumentar o motivo da decisão de impor a maior sentença possível ao americano de 71 anos, autor confesso de uma fraude de US$ 50 bilhões de dólares, a maior da história.

O juiz, que recebeu os aplausos da audiência, citou uma das dezenas de cartas que recebeu das vítimas da fraude. Uma delas contava que no funeral de um dos clientes de Madoff, o financista se aproximou da viúva, a abraçou e disse que "seu dinheiro estava a salvo", por isso ela confiou ainda mais fundos ao empresário e agora perdeu tudo.

"Deve-se transmitir uma mensagem de que os delitos do senhor Madoff foram extraordinariamente maléficos e que este tipo de manipulação do sistema não constitui um simples delito sem derramamento de sangue, que fica somente sobre o papel, mas resulta também em impressionantes penas", argumentou o juiz.

Com esta sentença - que pode ser recorrida -, Chin cumpriu com as expectativas de grande parte das vítimas, algumas das quais tomaram a palavra hoje na corte para pedir, mais uma vez, a maior pena possível contra ele.

"Madoff brincou com nosso dinheiro e agora nos tirou tudo", afirmou uma delas.

Outra, que disse ter sido amiga próxima do casal Madoff, ainda estava indignada por sua "falta de escrúpulos", enquanto uma terceira assegurava que sua vida "nunca voltaria a ser a mesma", já que de um dia para outro teve que passar aposentadoria trabalhando em três empregos.

Antes da divulgação da sentença, Ira Sorkin, o advogado de Madoff, afirmou que a pena de 150 anos de prisão reivindicada pela Promotoria era "um absurdo", já que, embora seu cliente seja "um indivíduo extremamente defeituoso", é também um ser humano.

"A vingança não é o objetivo das penas", insistiu Sorkin, que também defendeu que com uma pena muito menor, Madoff passaria o resto de sua vida na prisão, por isso pediu clemência e propôs uma condenação de apenas 12 anos.

O protagonista da fraude, no entanto, se limitou a tomar a palavra antes da divulgação da sentença para mostrar sua "vergonha" e reconhecer que "não há perdão possível" pelo "terrível erro" que cometeu.

Madoff, ex-presidente da Nasdaq e um dos mais conceituados assessores financeiros dos Estados Unidos, quis deixar claro, novamente, que nem sua esposa, nem seus filhos conheciam seus fraudulentos negócios.

Embora o juiz tenha reconhecido que existia uma "ânsia de vingança" entre as vítimas, decidiu não atender o pedido de clemência de Sorkin e a recomendação do departamento federal de liberdade condicional, que propunha 50 anos.

Chin optou pela pena máxima para deixar claro que este tipo de delito pode resultar em duras sentenças, o que poderia servir de influência para a juíza do Texas, que em breve deverá julgar o multimilionário R. Allen Stanford, acusado de montar uma fraude de US$ 7 bilhões e que enfrenta uma pena de 250 anos.

Nos últimos meses e por causa da crise econômica e financeira, numerosas fraudes criadas sob estruturas do chamado esquema "Ponzi" foram reveladas. A constante entrada de novos investidores no sistema permite abonar elevados juros aos clientes mais antigos do esquema.

Num momento de escassez de novos clientes ou quando os mais antigos queiram retirar seu dinheiro, esta estrutura é derrubada, o que evidencia que, na verdade, não há nenhum negócio ou investimento por trás do esquema.

"Os delitos cometidos foram extraordinariamente graves e a severidade desta sentença é um justo reflexo dos danos causados", resumiu a Promotoria do Distrito Sul de Nova York, em comunicado.

Depois da divulgação da sentença, Ruth, a esposa de Madoff, rompeu seu silêncio e disse que estava "envergonhada e com medo".

"Como todo o mundo, me sinto traída e confusa", afirmou.

A esposa de Madoff, de 68 anos, está sofrendo rejeição de seus ex-amigos íntimos, muitos deles também vítimas. Ruth tem enfrentado problemas para ir ao supermercado ou ao cabeleireiro e não consegue nem sequer alugar um apartamento.

"Nada do que eu disser parece suficiente diante do sofrimento diário que vivem todas essas pessoas inocentes. Não há um dia sem que me doam todas as histórias que ouço e leio sobre elas", afirmou Ruth. EFE mgl/pd

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