Jovem latino-americano tem 30 vezes mais chance de ser morto do que europeu

A probabilidade de um jovem da América Latina morrer vítima de homicídio é 30 vezes superior que a de um jovem da Europa e mais de 70 vezes maior que em países como Grécia, Inglaterra ou Japão, revela o Mapa da Violência: os Jovens na América Latina, lançado nesta terça-feira. O estudo elaborado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, diretor de pesquisas do Instituto Sangari, a partir da análise de dados de 83 paises, 16 deles latino-americanos, revela que o continente tem a maior taxa de homicídios do mundo e, nesse contexto, os jovens são as principais vítimas.

BBC Brasil |

"Estamos vivendo uma crise de juventude na América Latina", disse Waiselfisz à BBC Brasil.

De acordo com o relatório - lançado em parceria pelo Instituto Sangari, o Ministério da Justiça e a Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla) -, a taxa de homicídios entre jovens na América Latina é de 36,6 para cada 100 mil habitantes. Na América do Norte, essa taxa é de 12, e na Europa, de 1,2.

Entre os 83 países analisados, os cinco primeiros colocados no ranking que mede a taxa de homicídio juvenil são da América Latina.

A lista é liderada por El Salvador, com 92,3 homicídios para cada 100 mil habitantes. O Brasil é o quinto colocado, com taxa de 51,6.

Quando observadas as taxas na população total, e não apenas entre os jovens, a América Latina também aparece à frente dos outros continentes, com 19,9 homicídios para cada 100 mil habitantes. Na Europa, essa taxa é de 1,2. Na América do Norte, é de 5,6.

Os quatro países com maiores taxas totais de homicídios entre os 83 analisados são da América Latina. El Salvador novamente encabeça o ranking, com 48,8 homicídios para cada 100 mil habitantes.

Segundo Waiselfisz, mesmo os países com as menores taxas de homicídio na América Latina, quando analisados no contexto mundial aparecem em posição intermediária "ou até mesmo entre os de violência elevada".

O Uruguai é o país latino-americano com a menor taxa de homicídios juvenil, 7 para cada 100 mil habitantes. Em relação aos homicídios totais, tem taxa de 4,5. Apesar disso, quando confrontado com os outros 82 países, o Uruguai fica na 27º posição em relação a homicídios juvenis e na 35ª nas taxas totais.

Vítimas
Os países latino-americanos também ocupam posição de destaque quando analisados os índices de vitimização juvenil (a relação entre a taxa de homicídios entre jovens e entre não-jovens)
Porto Rico (Estado Livre Associado dos Estados Unidos mas que, como afirma o autor, "compartilha muitos elementos da cultura latina") é o primeiro em vitimização, com índice de 3,3.

É seguido pela Venezuela (2,9) e pelo Brasil (2,7). Em quarto lugar aparecem os Estados Unidos, com índice de 2,6.

Segundo o estudo, apesar da noção de que a violência juvenil é um fenômeno universal, "em mais da metade dos países a proporção de vítimas jovens é quase igual ou inferior às vítimas não-jovens".

Na América Latina, porém, o panorama é considerado "grave". Dos 20 países com maior índice de vitimização juvenil, dez são latino-americanos.

O Mapa da Violência acompanha a evolução dos homicídios entre 1994 e 2005 e revela que apenas quatro dos 16 países da região tiveram quedas nas taxas totais.

"Na população jovem, só três países (Colômbia, Cuba e México) mostram queda em suas taxas de homicídio", diz o documento.

Em vários países, os homicídios juvenis foram responsáveis pelo aumento das taxas de violência.

"Em casos extremos, como os do Brasil, El Salvador, Guatemala e Paraguai, as vítimas juvenis são responsáveis pela quase totalidade dos aumentos dos homicídios no período (de 1994 a 2005)", afirma o estudo.

Renda
Além de homicídios, o relatório traz dados sobre acidentes de transporte, suicídios e mortes por arma de fogo.

Segundo Waiselfisz, em todas as categorias a América Latina se destaca pela alta taxa de mortalidade juvenil.

Ao analisar os fatores que explicam os níveis de violência, o relatório conclui que as desigualdades na distruibuição de renda têm um grande peso.

"Uma das explicações mais fortes no momento é de que grande parte dessa violência se explica pela concentração de renda", disse Waiselfisz à BBC Brasil.

No relatório, foram analisados indicadores do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a relação entre os 10% mais pobres e os 10% mais ricos e o índice Gini (que mede a concentração de renda de um país).

Segundo o autor, "48% da variação dos índices de homicídio total são explicadas pela variação dos índices de concentração de renda".

De acordo com o relatório, os indicadores de concentração de renda explicam melhor os homicídios juvenis do que aqueles entre não-jovens.

"Com isso podemos concluir que, mais do que a pobreza absoluta ou generalizada, é a pobreza dentro da riqueza, são os constrastes entre ambas, com sua seqüela de maximização e visibilidade das diferenças, a que teria maior poder de determinação dos níveis de homicídio de um país", escreveu o autor no relatório.

O Mapa da Violência revela ainda uma reconfiguração geográfica na violência na América Latina.

Segundo Waiselfisz, os pólos dinâmicos de violência historicamente estavam localizados principalmente na Colômbia e no Brasil, relacionados especialmente ao tráfico de drogas.

No entanto, quedas nos índices da Colômbia, a partir de 2002, e do Brasil, desde 2003, aliadas ao aumento dos índices em países como El Salvador, Nicarágua e Guatemala, mudaram esse cenário.

"Se no período do predomínio do eixo Colômbia/Brasil, seu determinante mais visível, mais divulgado, era o tráfico de drogas, nos novos pólos dinâmicos seriam os problemas juvenis, centrados na "maras" (gangues), os novos motores impulsores da violência", diz o relatório.

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