Equipados com trajes de proteção, os jornalistas inspecionaram o complexo de Fukushima durante três horas

Um limitado grupo de jornalistas entrou neste sábado na usina nuclear de Fukushima Daiichi pela primeira vez desde o início da crise atômica no Japão, iniciada com o terremoto seguido de tsunami de 11 de março , em uma visita guiada e organizada pelo governo japonês, informa a agência de notícias local Kyodo. A intenção é provar que o acidente nuclear foi controlado.

Assista ao vídeo: Jornalistas registram 1ª visita a Fukushima desde acidente nuclear

Funcionários com macacões e máscaras de proteção esperam para entrar em centro de operações emergenciais na usina atômica de Fukushima, Japão
AP
Funcionários com macacões e máscaras de proteção esperam para entrar em centro de operações emergenciais na usina atômica de Fukushima, Japão
Vestidos com trajes antirradiação, rostos protegidos por máscaras respiratórias e munidos com pares de luvas, cerca de 30 repórteres, entre eles quatro representantes da imprensa estrangeira, foram conduzidos em dois ônibus até o complexo de Fukushima, que inspecionaram durante três horas acompanhados pelo ministro japonês encarregado da crise nuclear, Goshi Hosono.

Até agora, a empresa administradora da usina, Tokyo Electric Power Company (Tepco), não tinha permitido a entrada da imprensa ao local por considerar que os níveis de radiação eram altos demais. Os níveis de radiação emitidos pela central caíram de forma considerável nos últimos meses, segundo a companhia.

Após atravessar as cidades fantasmas localizadas na zona interditada, os jornalistas constataram que o nível de radioatividade era de 20 microsieverts (que mede os efeitos biológicos da radiação) por hora na entrada da central.

À medida que os veículos se aproximavam dos reatores, o nível subiu rapidamente até alcançar 500 microsieverts por hora. Enquanto o comboio atravessava uma floresta de pinheiros, um porta-voz da Tepco disse que o nível de 1.000 microsieverts, ou um millisievert por hora, foi registrado recentemente no mesmo local. Esse é o limite de dose anual estabelecido em tempos normais no Japão e na maioria dos países.

Os jornalistas também visitaram a base de operações de onde são coordenados os trabalhos de limpeza na área e o acampamento onde estão alojados os operários e membros das Forças de Autodefesa japonesas, situado em um campo de futebol a cerca de 20 km da usina, informou a emissora televisão local NHK.

Durante a visita, os jornalistas puderam comprovar o funcionamento dos equipamentos de medição de radiação da central e examinar uma área de armazenamento de resíduos. Segundo a Tepco, as condições de vida dos operários melhoraram nos últimos oito meses. Eles, que antes dormiam no chão, contam com uma clínica e um refeitório aberto durante o dia todo.

Um jornalista relatou que a construção que abrigava o reator número três, o mais atingido, está rodeada por carcaças de caminhões, barreiras metálicas retorcidas e reservatórios de água rompidos.

Crise nuclear

O tsunami de 11 de março, provocado por um terremoto de magnitude 9, atingiu a central interrompendo os circuitos de resfriamento e danificando os geradores de emergência. O combustível estocado em três dos seis reatores e na piscina de resfriamento do reator 4 começou a esquentar perigosamente, ao ponto de fusionar e provocar explosões.

Após vários dias de seguidas tentativas para resfriar os reatores com a água do mar e depois água doce, os operários e técnicos conseguiram frear o processo e, depois de longos meses, estabilizar a temperatura do combustível.

A Tepco espera conseguir fazer uma "parada a frio", isso é, manter o combustível abaixo de 100°C até o próximo mês. A operadora explicou aos jornalistas que aproximadamente 3,2 mil pessoas trabalham durante a semana na central, e a metade desse número no fim de semana.

Hosono, que é ministro do Meio Ambiente além de encarregado da gestão do acidente de Fukushima, disse estar confiante, mas ressaltou que o desmantelamento de todas as instalações demorará pelo menos mais 30 anos. "A cada vez que volto aqui, sinto que as condições melhoraram. E isso é graças ao trabalho de vocês", discursou o ministro aos operários.

O terremoto e o tsunami deixaram cerca de 20 mil mortos e desaparecidos na costa japonesa, mas o acidente de Fukushima, a catástrofe nuclear mais grave desde Chernobyl, há 25 anos, não causou, até agora, a morte de ninguém. Apesar disso, provocou a retirada de milhares de habitantes e poluiu gravemente o ar, o solo e o oceano, com consequências em longo prazo na cadeia alimentar.

O diretor de Fukushima Daiichi, Masao Yoshida, afirmou que a situação está sob controle. "De acordo com registros da estação a que tive acesso, não há dúvida de que os reatores estão estabilizados", disse. Ele, porém, reconheceu que ainda existe perigo.

*Com EFE e AFP

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.