Jornalistas condenam demissões por publicação de foto com ofensa a Putin

Em carta aberta divulgada na internet, mais de 60 funcionários do Kommersant repudiam a decisão do proprietário da publicação

iG São Paulo |

AP
Capa da última edição da revista Kommersant Vlast que provocou demissões na publicação
Os repórteres e editores de um jornal russo assinaram uma carta aberta de protesto nesta quarta-feira depois que o proprietário da publicação demitiu dois executivos por conta de uma foto que continha um xingamento ao atual premiê Vladimir Putin, informou nesta quarta-feira a rede BBC.

Leia também: Editor russo é demitido por publicar foto com xingamento a Putin

Mais de 60 funcionários do Kommersant, um jornal diário de negócios, assinaram a carta depois que o dono do jornal, o magnata Alisher Usmanov, demitiu os dois executivos.

"Nós estamos sendo compelidos a sermos covardes, o que não vale a pena e é improdutivo", afirmava a carta divulgada na internet. Usmanov disse que entendia os jornalistas, mas mantinha sua decisão.

Uma reportagem sobre a eleição parlamentar no país na revista Kommersant Vlast, que veio junto ao jornal na segunda-feira, continha uma foto de Putin diante de uma urna de votos olhando para uma cédula que continha uma mensagem obscena.

A chamada de capa da revista ainda faz um trocadilho com o nome do partido de Putin - Rússia Unida - e a prática de preencher as urnas da eleição parlamentar com cédulas falsas - o que foi alegado por alguns observadores eleitorais no dia 4 de dezembro.

Usmanov demitiu o editor da revista, Maxim Kovalsky, e o chefe da publicação, Andrei Galiyev. Demyan Kudryavtsev, chefe da Kommersant, assumiu a responsabilidade e se demitiu, dizendo em seu blog que a edição da revista havia sido publicada "em violação dos procedimentos internos, dos padrões jornalísticos e a lei russa".

Na carta, publicada no site openspace.ru, os jornalistas argumentam que as palavras obscenas na foto não eram "as palavras da revista, mas uma foto capturando o verdadeiro comportamento dos eleitores na votação".

Em defesa à integridade de Kovalsky, eles dizem: "Para nós, defendê-lo é como defender nossa própria honra e dignidade". "Nós consideramos sua demissão como um ato de intimidação que quer prevenir qualquer palavra crítica contra Vladimir Putin."

Além dos funcionários do Kommersant, jornalistas do jornal online gazeta.ru também assinaram a carta. "Eu acredito que tomei a decisão correta e não pretendo voltar atrás", disse Umanov à mídia russa. "Emocionalmente, eu posso entender o que os jornalistas estão falando. No entanto, Kommersant Vlast é uma publicação independente, respeitável e sócio-política."

Putin foi alvo de protestos na semana passada devido às supostas fraudes nas eleições parlamentares que deram pouco menos de 50% de votos ao partido do premiê - bem menos se comparado aos 64% de 2007.

Em meio a esse quadro de supostas irregularidades, o presidente da Duma, a Câmara Baixa do Parlamento russo, Boris Gryzlov, anunciou sua renúncia nesta quarta-feira. “Apesar de a lei não fixar limites, não vou mais participar da Duma por considerar incorreto ocupar o cargo de presidente por mais dois mandatos consecutivos”, afirmou Gryzlov, em Moscou.

Ele vai ser um dos candidatos nas eleições presidenciais que acontecem daqui a três meses na Rússia. Essa semana, o bilionário russo Mikhail Prokhorov afirmou que vai concorrer com Putin pelo cargo.

Com BBC e AP

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