Jornalista que jogou sapatos contra Bush é condenado a três anos de prisão

Mountazer al-Zaidi, o jornalista iraquiano de 30 anos que se tornou conhecido no mundo inteiro por ter lançado seus sapatos contra o ex-presidente George W. Bush, foi condenado nesta quinta-feira em Bagdá a três anos de prisão pela corte criminal iraquiana.

AFP |

Mountazer al-Zaidi, acusado de agressão contra um chefe de Estado estrangeiro durante uma visita oficial e detido desde meados de dezembro em uma prisão na zona verde, o setor ultraprotegido de Bagdá, se declarou inocente na abertura da audiência. A setença foi declarada em pouco menos de meia hora.

"Longa vida ao Iraque", gritou o jornalista ao ouvir o veredicto do juiz Abdel Amir al-Roubaie, disse seu advogado Yahia Attabi à AFP, acrescentando que vai apelar da decisão.

O veredicto foi lido na presença do acusado e de seus 25 advogados, porque a família e os jornalistas foram impedidos de entrar na sala da audiência.

Segundo a defesa, o juiz explicou que levou em conta a idade do acusado e o fato de esta ser sua primeira condenação.

O jornalista, que trabalha para Al-Baghdadiya, uma rede iraquiana com sede no Cairo, corria risco de pegar até 15 anos de prisão.

Na confusão da saída da sala de audiência, a família e os jornalistas tinham escutado os advogados dizerem "quatro anos de prisão". As pessoas então começaram a gritar "É um tribunal americano! Cachorros!".

"É um tribunal político", acusou seu irmão Oudai. "Mountazer é tratado como um prisioneiro de guerra", continuou.

Clamando inocência, o jornalista explicou ao juiz que perguntou a ele se era inocente que "sim", que sua "reação foi natural, como teria sido a de qualquer outro iraquiano".

Cerca de 200 pessoas, próximas a Zaidi, jornalistas e advogados aguardaram o término da audiência em frente à Corte criminal que julga habitualmente casos de terrorismo.

Aberta em 19 de fevereiro, o processo de Mountazer al-Zaidi, desconhecido até lançar seus sapatos contra Bush, em 14 de dezembro, em plena entrevista coletiva à imprensa do ex-presidente americano e do primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki, se revoltou com o discurso sobre a natureza da visita de Bush ao país.

A defesa do jornalista tentou provar que Bush fez uma visita surpresa e não uma visita oficial e, assim, invalidar o argumento da acusação.

No início da audiência, o juiz anunciou que o ex-presidente americano realizou de fato uma "visita oficial", segundo as informações do governo iraquiano.

Em 19 de fevereiro, Zaïdi havia justificado sua atitude pela extrema emoção que sentiu ao ver "o responsável dos crimes cometidos no Iraque".

"Ele é o maior responsável dos assassinatos cometidos contra meu povo e eu quis modestamente fazer alguma coisa pelas vítimas", afirmou. "Ele falava das vitórias e das conquistas (americanas) no Iraque, mas eu o que eu vejo em termos de conquistas, é um milhão de mártires, o sangue derramado, as mesquitas perseguidas, as iraquianas estupradas, os iraquianos humilhados".

Ele se levantou e gritou ao presidente americano que realizada esta última visita no Iraque: "foi o beijo do adeus, seu cachorro", antes de lançar seus sapatos, que não atingiram o alvo.

O jornalista contou que foi agredido e torturado com choque elétrico após o incidente por um general.

Os irmãos dele anunciaram que estão tentando processar Bush, Nuri al-Maliki e seus seguranças por "tortura" numa corte belga ou espanhola.

O protagonista da curiosa agressão, o ex-presidente George W. Bush, afirmou, por sua vez, que a senteça do jornalista é um assunto exclusivamente iraquiano, segundo declarou nesta um porta-voz.

"Este é um assunto do sistema judicial iraquiano", afirmou o porta-voz do ex-presidente, Rob Saliterman, à AFP.

Já para a Federação Internacional de Jornalistas (FIP), a condenação a três anos de prisão é "desproporcional" e "lamentável".

"A condenação é totalmente desproporcional", disse Aidan White, secretário-geral da federação, que reúne mais de 600.000 jornalistas em mais de 100 países.

"O profissional cometeu um erro grave, mas era algo que poderia ter sido resolvido de uma maneira interna e não numa corte de justiça", acrescentou.

"A resposta iraquiana é lamentável e pedimos clemência e a redução da pena. Ele já ficou preso muito tempo por isso", concluiu.

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