São Paulo, 28 jan (EFE).- A jornalista brasileira Eliane Brum, vencedora do Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha, na categoria de Imprensa, disse hoje sentir-se muito feliz pelo prêmio, que definiu como reconhecimento a um trabalho nos leva a refletir sobre um novo fenômeno social.

"É maravilhoso ganhar um dos prêmios internacionais de jornalismo de maior prestígio. É muito importante pelo prestígio pessoal e da revista nesta reportagem", disse Brum à Agência Efe.

A jornalista, de 43 anos, foi agraciada hoje pela reportagem "O Islã dos Manos", publicada na revista "Época" em 2 de fevereiro de 2009.

O extenso trabalho de Brum aborda a expansão do Islã nas periferias brasileiras, mas a análise se concentra, especialmente, em São Paulo.

A jornalista narra as histórias pessoais e as 'aventuras' de convertidos ao Islã, em muitos casos determinadas pela pobreza e pela exclusão social.

"É um fenômeno 'invisível' que tem um componente racial muito forte entre os negros da periferia como resposta à desigualdade social e tem também uma conexão internacional que é necessário entender", disse Brum à Agência Efe sobre essa expansão do islã.

O júri da 27ª edição dos prêmios, convocados anualmente pela Agência Efe e pela Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID), avaliou a originalidade e a oportunidade da reportagem, porque "mostra que as novas tendências religiosas na América Latina não se limitam à expansão de seitas evangélicas".

Esse crescimento do islã na periferia de São Paulo está muito vinculado ao hip-hop. Por isso a autora usa o termo 'manos', que é como os adeptos a esse movimento cultural se referem aos rapazes, enquanto as meninas com as 'minas'.

Segundo explica Brum, houve nos anos 60 um grupo de jovens da periferia de São Paulo que se organizaram em torno do islã a partir do movimento negro americano e da conversão do boxeador Mohammed Ali. No entanto, essa tendência só começou a ganhar força algumas décadas depois.

"A partir do filme Malcolm X e depois do 11 de setembro de 2001, jovens negros começam a procurar as origens do islã e descobrem que têm uma raiz histórica comum", ressalta Brum.

A jornalista destaca que os jovens que se convertem ao islã no Brasil, em geral não têm ascendência árabe e são filhos de pais católicos ou evangélicos que nunca tiveram vínculos com a religião muçulmana.

Eliane Brum trabalhou durante 11 anos no jornal "Zero Hora", de Porto Alegre, e desde 2000 escreve para a "Época".

A jornalista publicou três livros de reportagens, premiados no Brasil, e recebeu cerca de 40 prêmios de jornalismo, nacionais e internacionais.

Seu primeiro documentário, "Uma História Severina" (2005), no qual trabalhou como codiretora e roteirista, recebeu mais de 20 prêmios. EFE joc/sa

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