Jornal que revela escândalo de gastos ganha leitores e gera polêmica

A tempestade que deixou o Reino Unido à beira de uma crise constitucional foi iniciada por um jornal, o venerável Daily Telegraph, que revelou o escândalo dos gastos dos parlamentares, ao que tudo indica depois de pagar pela informação, o que vem provocando críticas.

AFP |

Pedidos de desculpas, renúncias de parlamentares e um clima sombrio em Westminster: o jornal, que há 15 dias revela detalhes dos gastos dos "honoráveis" representantes de Sua Majestade, desencadeou o que um deputado chamou de "a mais grave crise constitucional desde a abdicação de Edward VIII em 1936".

As revelações de que deputados de todos os partidos encheram os bolsos com dinheiro dos contribuintes, utilizando para mobiliar casas e pagar por um estilo de vida luxuoso, aumentou de maneira considerável as vendas do jornal conservador.

Os dados oficiais só serão publicados em junho, mas a imprensa afirma que o jornal vendeu 90.000 exemplares a mais que a médida no primeiro dia das revelações e 600.000 nos primeiros 11 dias.

Muitos criticam, no entanto, o fato da história, que há duas semanas domina o noticiário de rádios, TVs e jornais britânicos, não ser produto de um furo jornalístico e sim de um pagamento feito pelo jornal.

O jornal The Guardian informa que um homem não identificado - provavelmente um funcionário do gabinete de contabilidade do Parlamento - tentou vender as informações sobre os gastos dos parlamentares ao tablóide The Sun, que considerou a quantia pedida muito alta, e depois ao Daily Express, que também rejeitou a oferta.

Em seguida procurou o Daily Telegraph que, segundo o Guardian, pagou um valor desconhecido pelo CD com as informações explosivas, que abalaram Westminster.

O Telegraph se recusa a confirmar ou até a comentar as versões. "Uma das grandes regras do jornalismo é que se deve estabelecer que a informação é verdadeira, e de interesse público, mas que as fontes não sejam reveladas", afirma a editora adjunta do jornal, Benedict Brogan.

O professor Tim Luckhurst, do departamento de Jornalismo da Universidade de Kent, considera possível supor que o jornal pagou pela informação, mas opina que o trabalho do Daily Telegraph não é o que se chama de "jornalismo de talão de cheque".

"O pagamento pela informação não tirou a credibilidade da fonte. Pelo contrário, o jornal tem prestado um serviço público", afirma Luckhurst.

"Ao desentranhar centenas de faturas, o Telegraph demonstrou que os jornalistas são capazes de interpretar e explicar com clareza um material complexo, o que é muito mais difícil para blogueiros políticos, por melhores que sejam", observa.

Além disso, as matérias do Telegraph - que deve ser o grande vencedor dos prêmios para o jornalismo britânico de 2009 - "demonstram que as histórias continuam vendendo jornais, mesmo em tempo de crise", comemora Luckhurst.

Andres Pierce, editor do Telegraph, afirma que o "Expediente de Gastos" do Telegraph é "a melhor campanha jornalística que Grã-Bretanha viu em décadas".

Luckhurst opina que as revelações - baseadas no trabalho da jornalista e ativista Heather Brooke, que há muitos anos exigia a publicação dos gastos dos legisladores - não representa o triunfo de apenas um jornal, já que jornalistas de outros veículos de comunicação têm usado as informações do Telegraph para investigar a história.

Mas sem dúvida o Telegraph é quem mais lucra com a situação, já que conquistou milhares de leitores na internet e conseguiu novos anúncios publicitários.

Graças à estratégia de publicar as primeiras revelações às 20h00 locais, antes dos noticiários de TV das 22h00 e do fechamento dos jornais, a visitação ao site do Telegraph aumentou 35%.

Apesar da persistência da polêmica sobre como o Telegraph obteve a informação, e sobre se é ético pagar para obter informação, a Scotland Yard já anunciou que não vai investigar como vazaram para a imprensa os detalhes dos gastos dos parlamentares, como chegaram a sugerir alguns políticos.

ame/fp

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