Jornal francês redistribui caricatura de Maomé após ataque

Suplemento especial que tem Maomé como editor convidado foi distribuído um dia depois de incêndio na sede do Charlie Hebdo

Reuters |

AP
Sede do jornal de sátiras francês Charlie Hebdo, que 'convidou' o profeta Maomé como editor convidado essa semana, foi incendiada (2/11)
Um semanário francês de sátiras, cujo escritório foi incendiado depois de ter impresso uma charge do profeta Maomé, reproduziu o desenho com outras caricaturas em um suplemento especial distribuído junto com um dos principais jornais do país.

Leia também: Veja cronologia da crise das caricaturas de Maomé

O jornal Charlie Hebdo defendeu "a liberdade de tirar sarro" no suplemento de quatro páginas que foi embrulhado em volta das cópias do jornal diário de esquerda Liberatión, nesta quinta-feira, um dia depois do ataque com uma bomba incendiária à sede do semanário.

Ninguém assumiu responsabilidade pelo ataque, que aconteceu horas antes da edição do Charlie Hebdo chegar às bancas com uma tirinha na capa de Maomé e um balão de discurso que dizia "100 chicotadas se você não morrer de rir".

O semanário, conhecido por seu tratamento irreverente a questões políticas e figuras religiosas, trazia o título Charia Hebdo, em referência à lei muçulmana Sharia, e disse que a edição desta semana tinha como editor convidado Maomé.

O incidente contraria a tradição europeia de liberdade de expressão e o secularismo contra a determinação do islã de barrar qualquer representação vista como zombaria ao profeta. A publicação de charges de Maomé em um jornal dinamarquês em 2005 provocou revolta no mundo muçulmano, na qual pelo menos 50 pessoas foram mortas.

Embora grupos muçulmanos franceses tenham criticado o trabalho do Charlie Hebdo, eles também condenaram o ataque ao prédio da publicação. "Eu sou extremamente ligado à liberdade de imprensa, mesmo que a imprensa não seja sempre carinhosa com os muçulmanos, o islã ou a Mesquita de Paris", disse o chefe da Mesquita de Paris, Dalil Boubakeur, em entrevista coletiva na quinta-feira. "Muçulmanos franceses não têm nada a ver com o islã político", acrescentou.

Após o bombardeio, a equipe do Charlie Hebdo se mudou temporariamente para a sede do Liberatión. As duas publicações produziram em conjunto o suplemento de quinta-feira, que reproduziu a tirinha do Charlie Hebdo em um artigo na última página. Uma manchete do suplemento dizia: "Depois que o escritório deles foi incendiado, essa equipe defende a 'liberdade de tirar sarro'."

"Pensamos que as linhas haviam mudado e que talvez houvesse mais respeito pelo nosso trabalho de sátira, nosso direito de zombar. A liberdade de dar uma boa risada é tão importante quanto a liberdade de expressão", afirmou a editora do Charlie Hebdo, Stephane Charbonnier, no suplemento do Liberatión.

O suplemento incluiu vários novos desenhos de cartunistas do Charlie Hebdo. Em um deles, uma figura parecida com um profeta tenta segurar suas vestes em uma pose que lembra Marilyn Monroe enquanto uma corrente de ar sopra dos jornais Charlie Hebdo embaixo dele. Outra tirinha mostra uma bomba vinda do ar com um rosto em chamas e a legenda "Então, é assim que você vê o profeta?".

A França tem a maior comunidade muçulmana da Europa, com cerca de cinco milhões em uma população total de 65 milhões. O país tem uma profunda tradição de secularismo oficial e adotou uma proibição esse ano às mulheres vestindo véus que cobriam o rosto em público, que está sendo contestada no tribunal.

Luz, o cartunista que fez os quadrinhos no centro da polêmica, disse que ainda não estava claro quem havia realizado o ataque. "Vamos ser cautelosos. Há toda razão para acreditar que é obra de fundamentalistas, mas poderia muito bem ser um trabalho de dois bêbados", afirmou ele no suplemento de quinta-feira.

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