Domingo, durante duas horas, os moradores de Bagdá puderam esquecer o ódio e o sangue, os conflitos entre comunidades e os cortes de eletricidade, para compartilhar, em grande número e nas mesmas arquibancadas, uma felicidade inédita nos cinco últimos anos.

Domingo, pela primeira vez desde a invasão americana de 2003, quase 50.000 pessoas de todas as idades e de todos os bairros da capital assistiram à final do Campeonato Iraquiano entre Zawra, o clube mais popular de Bagdá, e Erbil, o clube da capital do Curdistão.

O clube de Erbil venceu, por 1-0 na prorrogação, mas o resultado não teve qualquer importância. Para os iraquianos, o mais importante era o prazer de ter a possibilidade de torcer juntos novamente.

"Não torço por nenhum dos dois times, mas vim para ver iraquianos felizes. É maravilhoso ver pessoas sorrindo", declarou Latif Jabbur, um aposentado de 58 anos que veio de Samawa, 270 km ao sul de Bagdá, para assistir à partida.

Devido aos carros-bombas, aos tiroteios e aos assassinatos, não vinha sendo possível disputar a final do Campeonato Iraquiano no estádio Ash-Shaab em Bagdá. As decisões vinham sendo disputadas no Curdistão, mais tranqüilo. A de 2006 foi em Suleimaniyah e a do ano passado em Erbil.

"Só tivemos infelicidades, e precisamos tanto ser felizes! Esta é a primeira vez que esqueço tudo. Não se pode distingüir um xiita de um sunita, são todos iraquianos", afirmou Mohammed Kazem, um entregador de 18 anos.

Há um ano, reunir tamanha multidão era impossível. Os 89 bairros diferentes de Bagdá haviam sido transformados em campos militares, de onde a comunidade majoritária expulsava as outras.

A situação era a mesma em todo o país. Para um xiita, ir para o oeste era praticamente um suicídio, e um sunita que viajasse para o sul corria risco de vida.

Em 2004, o campeonato havia sido cancelado e em 2005, quando se multiplicavam os atentados contra uma ou outra comunidade religiosa, a federação de futebol havia criado quatro grupos de sete equipes divididos em norte, sul, leste e oeste, para evitar os cada vez mais perigosos deslocamentos dde uma região à outra.

"Depois de tanta violência, tudo o que vejo hoje são iraquianos", festejou Abbas Kazem, um policial de 38 anos, passeando tranqüilamente pelas arquibancadas.

Quase todo o público do estádio torcia para o Zawra, mas algumas bandeiras amarelas - a cor do Erbil - apareciam em um setor da arquibancada. "Esta é a primeira vez que venho à capital e vejo outros iraquianos" que não são curdos, afirmou, feliz, Hussein Kassem, um desempregado de 22 anos procedente de Erbil.

"Foi muito prazeroso jogar diante dessa multidão", declarou Abdessalam Abbus, o atacante da equipe de Zawra.

Na pista em volta do gramado, crianças desfilaram com uma imensa bandeira iraquiana, provocando os os aplausos da multidão.

Quando o sol se pôs, a partida ainda estava na prorrogação. "Há pouco tempo, Bagdá se tornava uma cidade fantasma a partir das 17H00", comentou o comandante Abu Mahmud.

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