Japão religa energia de usina em corrida para conter radiação

Cabos foram conectados em Fukushima, mas ainda não se sabe se será possível reiniciar o bombeamento para resfriar as barras

iG São Paulo |

Engenheiros japoneses conseguiram na manhã deste sábado (horário local) conectar os cabos de energia à usina nuclear atingida pelo terremoto e o tsunami da semana passada, em uma corrida para tentar conter o vazamento radioativo que é considerado, no mínimo, tão grave quanto o de 1979 na ilha de Three Mile, nos EUA.

Apesar de ainda não ser possível determinar se isso será o suficiente para reiniciar o bombeamento de água necessário para resfriar as superaquecidas barras de combustível nuclear, a ligação de energia foi considerada uma pequena vitória no complexo nuclear de Fukushima Daiichi, 240 quilômetros ao norte de Tóquio.

AP
Foto mostra fumaça subindo de reator 3 da usina de Fukushima, no Japão (17/3/2011)
Quase 300 engenheiros que trabalham dentro do raio de 20 quilômetros que foi isolado pelas autoridades devido à radiação estavam focados em conseguir religar a energia das bombas de água em quatro dos seis reatores. "A Tepco (operadora da usina) conectou a linha de transmissão externa com o ponto de recepção da usina e confirmou que a eletricidade foi restabelecida", informou a empresa em comunicado.

O próximo passo será verificar se o equipamento está funcionando e não foi danificado, antes de iniciar o resfriamento do reator número 2, seguido pelos 1, 3 e 4, acrescentou. "Se eles conseguirem ligar as bombas e puderem começar a jogar água sem provocar nenhuma falha, devem conseguir controlar a usina nos próximos dias", disse o pesquisador Laurence Williams, da Universidade Central Lancashire, na Grã-Bretanha.

Opções

O fato de terem religado a energia, no entanto, não exclui outras opções para a usina nuclear, incluindo enterrá-la debaixo de areia e concreto - mesmo método empregado em Chernobyl em 1986 para selar vazamentos enormes.

O Japão elevou o nível de gravidade da crise nuclear do país de 4 para 5 em uma escala internacional de intensidade até 7. Assim, a situação em Fukushima se iguala ao acidente de Three Mile Island em 1979, apesar de alguns especialistas afirmarem que o caso japonês é mais grave. Chernobyl, na Ucrânia, teve intensidade 7 nessa escala.

A empresa que opera a usina do Japão reconheceu pela primeira vez que seria possível enterrar o grande complexo erguido há 40 anos - um sinal de que medidas isoladas, como atirar água de helicópteros militares sobre o reator ou esforçar-se para religar as bombas de resfriamento, podem não funcionar. "Não seria impossível encerrar os reatores em uma capa de concreto. Mas nossa prioridade nesse momento é tentar primeiro resfriá-los", disse em coletiva de imprensa um funcionário da Tokyo Electric Power Co (Tepco).

Uma semana

Com uma semana completa desde que um terremoto de 9 graus e um tsunami de dez metros de altura devastaram cidades costeiras e mataram milhares de pessoas, a pior crise nuclear mundial desde Chernobyl e as piores crises humanitárias do Japão desde a 2º Guerra Mundial pareciam estar longe de encerradas.

Até agora, os mortos confirmados pelo terremoto e o tsunami ultrapassam 6 mil, e ainda há mais de 10 mil desaparecidos. Cerca de 390 mil atingidos pela tragédia, entre as quais muitos idosos, estão desabrigados e enfrentam temperaturas de quase 0 grau Celsius em abrigos improvisados nas áreas costeiras do norte do país. Faltam comida, água, medicamentos e combustível para aquecimento.

Neste sábado, o governo admitiu pela primeira vez que poderia ter sido mais ágil no enfrentamento dos desastres múltiplos. "Um terremoto e um tsunami de dimensões sem precedentes atingiram o Japão. Em consequência disso, aconteceram coisas que não tinham sido previstas em matéria da reação geral ao desastre", disse em coletiva de imprensa o secretário chefe do gabinete, Yukio Edano.

Evasão

Turistas, estrangeiros e muitos japoneses continuam a deixar Tóquio, temendo uma explosão de material radiativo do complexo nuclear de Fukushima Daiichi, embora as autoridades de saúde e a agência de fiscalização nuclear da ONU tenham dito que os níveis de radiação na capital não são prejudiciais à saúde.

Autoridades esperam que até o domingo a eletricidade chegue às bombas do danificado reator 3, que foi ponto focal da crise porque emprega óxidos mistos (mox), contendo tanto urânio quanto plutônio.

Caso os reatores sejam enterrados, uma parte do Japão terá acesso proibido por décadas. "Não é tão fácil assim", disse Murray Jenex, professor da Universidade Estadual de San Diego, na Califórnia, quando perguntado sobre a chamada opção Chernobyl de enterrar os reatores. "Os reatores são um pouco como um aparelho de fazer café. Se você deixa o calor ligado, eles fervem até secar e então racham. Colocar concreto em cima disso não tornaria seu aparelho de café mais seguro. Mas, com o tempo, sim, seria possível construir um escudo de concreto e deixar por isso mesmo."

*Com Reuters

    Leia tudo sobre: japãoterremototsunamiusina nuclearvazamento

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG