Mudança coloca o acidente dois níveis abaixo do desastre de Chernobyl; Japão mantêm medidas para tentar resfriar reatores

A Agência de Segurança Nuclear do Japão elevou nesta sexta-feira de 4 para 5 o nível de gravidade nos reatores na usina.nuclear de Fukushima Daiichi, no leste do país, em uma escala internacional de sete pontos que mede a gravidade de desastres atômicos.

A decisão da agência foi tomada por causa dos danos no núcleo dos reatores e pelo vazamento contínuo de radiação, e classifica a situação como um "acidente com amplas consequências". Segundo a agência, a avaliação é específica para as explosões ocorridas nos reatores 1, 2 e 3.

A mudança de nível coloca o acidente de Fukushima dois níveis abaixo do desastre da usina de Chernobyl, de 1986 na Ucrânia (na época, parte da União Soviética). A medida também iguala o caso japonês ao acidente na usina nuclear de Three Mile Island, na Pensilvânia (Estados Unidos), em 1979.

Segundo a emissora de televisão estatal "NHK", a agência informou sobre sua revisão à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), cujo diretor, Yukiya Amano, chegou nesta sexta-feira ao Japão para obter informações sobre a situação em Fukushima. Amano afirmou em Tóquio que as tentativas para conter o vazamento de material radioativo na usina são uma "corrida contra o tempo".

Na terça-feira, a agência de segurança nuclear da França ASN já havia classificado o acidente como nível seis. "Está muito claro que estamos em um nível seis, que é intermediário entre o que aconteceu na ilha Three Mile e Chernobil", disse o presidente da ASN, Andre-Claude Lacoste, em Paris nesta terça-feira.

O terremoto e o posterior tsunami do dia 11 no nordeste do Japão danificaram o sistema de refrigeração da central, que enfrenta problemas de água em ebulição em seus seis reatores. Desde quinta-feira, a equipe de emergência da usina se esforça, com a ajuda de militares e bombeiros, para resfriar o reator 3 com lançamentos de água a partir de caminhões-pipa e helicópteros.

A radioatividade em torno da usina nuclear, em atividade desde 1971, levou o governo japonês a retirar quase 230 mil pessoas em um raio de 20 quilômetros, além de recomendar a todas que vivem entre 20 km e 30 km da central a permanecer em suas casas com portas e janelas fechadas.

Nesta sexta-feira, o governo do Japão afirmou que a água lançada por caminhões-pipa sobre o reator 3 aparentemente alcançou a piscina de combustível, borrifada na quinta-feira com 64 toneladas de água. Nesse depósito se encontra uma grande quantidade de combustível utilizado que, se for aquecido, pode entrar em ebulição e liberar radioatividade.

O porta-voz do governo, Yukio Edano, disse que não há "informação definitiva" sobre a situação nessa piscina, mas se mostrou otimista ao lembrar que dela se elevaram colunas de vapor, o que indicaria que a água chegou ao seu destino.

Edano indicou também que as operações para religar a eletricidade na central com o objetivo de restaurar, ao menos parcialmente, o sistema de refrigeração estão sendo realizados sem incidentes. De acordo com a agência de segurança nuclear do país, a eletricidade pode ser restabelecida na manhã de sábado nos reatores 1 e 2 da usina.

Os empregados da Tokyo Electric Power Company (Tepco), a operadora da usina, tentam fazer com que cabos elétricos levados à central cheguem até a área dos reatores, onde a radioatividade teria diminuído após as operações de lançamento de água.

Em Fukushima foram mobilizados sete caminhões das Forças de Autodefesa (Exército) para a operação de lançar 50 toneladas de água sobre a unidade 3. Em outra frente, a temperatura aumentou nas piscinas de resíduos nucleares dos reatores 5 e 6, enquanto a situação continua instável no reator 4, informou a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

A última informação sobre a temperatura da água na piscina da unidade 4 é apenas do dia 15 de março, quando marcou 84 graus centígrados, mais que o triplo do nível normal, de 25 graus.

No reator 5, a água do tanque de combustível usado alcançou às 15h de quinta-feira (horário de Brasília) a temperatura de 65,5 graus, um aumento de 2,8 graus em relação à última medição conhecida no dia anterior. No reator 6, no mesmo horário, a temperatura da água chegou a 62 graus, 2 graus a mais que na quarta-feira.

Sobreviventes rezam por vítimas de terremoto seguido de tsunami na cidade devastadas de Sendai, nordeste do Japão
AP
Sobreviventes rezam por vítimas de terremoto seguido de tsunami na cidade devastadas de Sendai, nordeste do Japão
Um gerador de emergência a diesel está funcionando para permitir o bombeamento de água nas piscinas dos reatores 5 e 6.

Número de mortos

Segundo informações da polícia, há 6.539 mortos e 10.354 desaparecidos na tragédia. A polícia fez a ressalva de que alguns dos desaparecidos poderiam estar fora da região no momento da tragédia. Além disso, a impressionante força do tsunami provavelmente levou muitas pessoas para o mar, fazendo com que muitos corpos possam nunca ser encontrados.

Parlamentares, governos locais e membros das equipes de resgate lembraram nesta sexta-feira com um minuto de silêncio o terremoto seguido de tsunami. Alguns membros das equipes de resgate que trabalham nas zonas afetadas fizeram a homenagem às vítimas da tragédia às 14h46 locais (2h46 de Brasília).

Na província de Miyagi, cuja capital é Sendai, os funcionários do governo local também participaram do ato simbólico. A homenagem também foi feita por senadores japoneses, que realizaram nesta sexta-feira sua primeira sessão depois do devastador terremoto. O tremor, o de maior intensidade registrado no Japão nos últimos 140 anos, levou o país à sua pior crise desde a Segunda Guerra Mundial, segundo o primeiro-ministro, Naoto Kan.

*EFE, BBC, AP e Reuters

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