A Jamaica fez em Pequim o que vem ameaçando fazer há anos: o país ultrapassou os Estados Unidos como maior potência nas corridas curtas do atletismo. As provas curtas - de 100 e 200 metros - sempre foram as mais prestigiadas do atletismo olímpico.

O primeiro sinal da supremacia jamaicana em Pequim apareceu no final de semana, quando o velocista jamaicano Usain Bolt, que venceu os 100 metros no tempo recorde de 9,69 segundos.

Mas a consolidação da nova ordem no esporte foi na final dos 100 metros femininos, quando a Jamaica conquistou o ouro e duas pratas - Shelly-Ann Fraser ganhou a prova, e Sherrone Simpson e Kerron Stewart atingiram um inusitado empate.

Este tem sido o pior desempenho dos Estados Unidos em corridas curtas nas Olimpíadas desde 1976, quando atletas caribenhos ganharam as medalhas de ouro em todas as provas masculinas de até 800 metros.

Na ocasião, Hasley Crawford, de Trinidad e Tobago, ganhou ouro nos 100 metros, Don Quarrie, da Jamaica, venceu os 200 metros, e o cubano Alberto Juantorena ficou em primeiro nos 400 e 800 metros.

Os Estados Unidos ainda podem se recuperar nas provas de 200, 400 e 800 metros, tanto no individual quanto nos revezamentos. Mas em Pequim, ninguém duvida que a grande potência das corridas, no momento, é o pequeno país caribenho de 2,6 milhões de habitantes.

Faculdades americanas
Como a Jamaica se tornou a nação mais forte nas corridas curtas?
Para o jornalista esportivo americano John Crumpacker, que cobre o esporte há 30 anos, os jamaicanos devem parte do seu sucesso às faculdades americanas.

"Tantos corredores jamaicanos vão para faculdades americanas e treinam com americanos, que eles estão acostumados a correr contra eles, e sabem o que é preciso para competir com os americanos", afirma o repórter do San Francisco Chronicle.

Ele diz que os atletas caribenhos - não só os jamaicanos - são os principais beneficiados do sistema de faculdades americanas.

"Alguns dos técnicos e dirigentes americanos resmungam 'Nós treinamos esses atletas e eles voltam e nos derrotam nos Jogos Olímpicos e campeonatos mundiais'. Mas universidade significa 'universal'."
O velocista Richard Thompson, de Trinidad e Tobago, atribui seu sucesso ao técnico americano Derek Shaver, com quem ele trabalha na Universidade Estadual de Louisiana (LSU, sigla em inglês), nos Estados Unidos.

Thompson foi medalha de prata na prova dos 100 metros rasos, atrás de Usain Bolt.

"Eu cheguei na LSU há quatro anos correndo 10,65 segundos e ele fez um trabalho ótimo comigo", disse o atleta, que em Pequim terminou a prova em 9,89 segundos.

Em 100 metros, o ganho de quase oito décimos de segundo pode significar uma margem de até oito metros em relação aos demais concorrentes.

Tradição
Para o dirigente jamaicano Patrick Anderson, ninguém deve se surpreender com os resultados da Jamaica em Pequim, já que o país vem conquistando medalhas olímpicas desde 1948.

"Herb McKinley estava na final dos 100 metros de 1952 em Helsinque e perdeu por um fio", disse ele, lembrando o pioneiro jamaicano de corridas, que conquistou um ouro e três pratas em duas Olimpíadas.

"Não é um sucesso da noite para o dia."
Atletas nascidos na Jamaica também já ganharam medalhas de ouro nos 100 metros defendendo outros países. É o caso de Linford Christie, que correu pela Grã-Bretanha em Barcelona 1992, e Donovan Bailey, que foi ouro pelo Canadá em Atlanta 1996.

"E não vamos nos esquecer de Ben Johnson", diz ele.

Johnson, nascido na Jamaica, ganhou o ouro em Seul pelos Estados Unidos, mas perdeu a medalha após testar positivo no antidoping.

Outros atletas também parecem reconhecer que a Jamaica é de fato a nova potência de corridas.

"Eu suponho que sim", disse à BBC a americana finalista dos 100 metros Torri Edwards, logo após a corrida.

"Nós já sabíamos que eles eram nossos principais competidores e que nós precisaríamos melhorar nossas marcas. (A vitória da Jamaica) não foi inesperada."
A outra finalista americana Lauryn Williams disse que os resultados mostram quem está por cima no esporte.

"Eles definitivamente chegaram em primeiro, segundo e terceiro."
Para o velocista jamaicano Michael Frater, que fez a final nos 100 metros, um dos motivos do sucesso do país é a confiança que os caribenhos vêm ganhando.

"Os caribenhos realmente melhoraram e não se sentem mais intimidados pelos americanos", disse.

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