Chatas são aquelas primeiras horas. Andar pela casa de um lado para outro sem saber direito o que fazer.

Uma chegada até o quarto. Olhar pela janela. Tudo normal lá fora. Gente normal fazendo coisas normais. Passou um ônibus na esquina e respeitou o sinal vermelho. Lá vai aquele senhor da casa ao lado levando o cachorrinho para um passeio pelo quarteirão. Uma mocinha sorri com, para e de seu celular. Ninguém no jardim. Também o dia não está lá grande coisa. Reina uma absoluta normalidade até onde dá para se ver.

Que se passará, no entanto, atrás das janelas cerradas (venta um pouco)? Lembrança momentânea de James Stewart, com sua perna quebrada, em Janela Indiscreta, de Hitchcock, bisbilhotando a vida dos outros.

Perna quebrada. Quebrada. Uma palavra a ser evitada nessas horas.

Aventuras na cozinha. Mudar a água da gata. Encher a cumbuquinha da gata com os biscoitinhos dela. De atum. Que é o sabor que ela mais gosta. A gata mordisca um pouco. Depois bebe sua água. Abro a geladeira. Tem ainda duas latas de água de coco da Indonésia. Com elas, quebro meu galho. Abro uma, deito goela abaixo, deixo metade para depois. Abro a torneira da pia e, sem a menor necessidade, lavo as mãos, desperdiçando água mas ganhando tempo.

Tempo. Que não passa. Que não corre nada. Tempo canalha.

Na sala, em cima do sofá de couro, intacto, virginal, o jornal do dia. Impossível ler, nessas horas. Nestas condições. Há que se tentar. Quais serão os parlamentares de hoje a abusar de suas mordomias? Com muita dificuldade, a primeira página é digerida. As fotos coloridas, as manchetes e os subtítulos. Vem à mente a frase feita como vem as frases durante o estado lisérgico ou de diamba forte:
"A vida deveria ser apenas fotos coloridas, manchetes e subtítulos."
Pelo espaço de pelo menos um minuto a ponderação é examinada e logo jogada fora. Como um cigarro em suas duas últimas tragadas.

Cigarro. Tragada. Tudo é conspiração.

Já tem agora duas horas. Sem nada. Cara limpa. Na sala, de novo, sentar na ponta da poltrona. Ligar a televisão. Gente sem som. Que é como deveria ser sempre. As gentes produzem uma grande quantidade desnecessária de som. Lá estão. Discutindo ou narrando as atrocidades e bizarrices de sempre. Em silêncio. Que tudo fica mais interessante tentando colocar num vago contexto o que na tela - mudamente, sempre mudamente - se passa. Poderia ser engraçado em outras circunstâncias. Não nestas.

Sentindo a passagem de cada segundo como um corte de gilete na pele, não é que quatro horas já foram para o beleléu do tempo e seus confins? Hora de conferir. As regras do jogo foram respeitadas. Duramente respeitadas. Dolorosamente cumpridas.

Abre-se, liga-se então, o computador. Os momentos pesados escorrendo até a tela se povoar de sua gentarada icônica habitual. Tudo lá. Ícone e mais ícone. No meio, para chamar mais a atenção, o do browser (como é que é browser em português mesmo? Navegador?). Com o camundongo apontando para ele - e acusando-o e maldizendo-o - o clique dado com suavidade hipócrita e, que remédio? esperançosa. A tela se enche com a mensagem que há três dias lhe atormenta. Em poucas e dura palavras, informa que o computador não está ligado à internet.

Fechar tudo. Voltar ao telefone. Para, pela enésima vez, após passar por uma multidão de gravações e instruções de que tecla premir, esperar que uma pessoa viva - por que serão sempre indianos ou paquistaneses? - venha mentir dizendo que houve um problema na linha e que é para aguardar umas quatro horas, quando tudo estará resolvido e, aí então, tentar de novo. Que, ele garante, tudo terá voltado ao normal. Normal, dizem eles. Normal.

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