Ivan Lessa: Twitteratura

Era uma questão de tempo. E o tempo chegou.

BBC Brasil |

Nas praças, em todas as boas e más livrarias, Twitteratura, da autoria de dois jovens estudantes britânicos, Alexander Aciman e Emmet Rensin.

Os dois, em empreitada digna de louvores, leram de cabo a rabo (e basta de frase-feita e lugar-comum, que o excelente Humberto Werneck acaba de publicar um excelente dicionário no Brasil a respeito, O Pai dos Burros) 60 clássicos da literatura mundial reimaginando sua prosa, ou melhor, resumindo-a, juntamente com uma pitada (ai!) de seus respectivos enredos. Sim, sim, era inevitável. No dia 5 de novembro o volume estará à venda, editado pela Penguin Books.

Um jornal daqui, The Guardian, teve acesso ao livro e deu uma amostra só para os ciber-maníacos matarem sua curiosidade.

Romeu, aquele da Julieta, ao expirar: "Ó, eu sou um tolo do destino! Talvez apenas seu instrumento. Morro, pois. Por falar nisso, que fim terá levada aquela garota que eu namorei antes da Julieta? Devia ter me amarrado nela".

Sherlock Holmes diz: "Fiz brilhantes deduções baseado em apenas algumas cachimbadas e umas poucas provas. Reparei no depósito de sal no sapato daquele trabalhador".

O jovem Werther, de Goethe, é bem mais emotivo: "Terei notado eu mesmo como estou perturbado? Estou bastante chateado. dor#angústia#sofrimento#faltasex."
Orgulho e Preconceito, de Jane Austen: "É como se quanto mais ele me despreza, mais eu me sinto atraída por ele. Isso me parece o contrário do que deveria ser. Isso aí".

E assim por diante.

Fico imaginando por que é que nós, 190 milhões de brasileiros, alguns beirando o abismo da alfabetização, não sofremos um empurrão, sob forma de programa governamental (nem precisa de Ato Secreto ou Aberto) que, além de divertir, não venha também a nos ilustrar?
Por exemplo:
Os Lusíadas: "Armada de Vasco da Gama se aproxima de Moçambique. Mouros a bordo. Traições no desembarque. Baco avisa rei de Mombaça para destruir portugueses. Armas e barões assinalados."
Os Sertões, de Euclides da Cunha: "O sertanejo é antes de tudo um forte. Vaqueiros, estouro da boiada, folclore, secas, religiosidade mestiça. Influências ecológicas e sociológicas preparam terreno aparecimento de Antônio Conselheiro. Soldados."
Dom Casmurro, de Machado de Assis: "Me chamo Bentinho. Por pessoas que não vão com minha cara. Deram-me um apelido chato: Casmurro. Falam de mim pelas minhas costas. Moro em Matacavalos, com minha mãe, Dona Glória. Capitolina, a Capitu, é minha irmã-namorada. Tem olhos cor de ressaca. Quase me torno padre. Casamo-nos afinal. Terá ele me traído com o Ezequiel ou não? Dúvidas cruéis".

Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado: "Mundinho é um jovem carioca que emigrou para Ilhéus. Anos 20. Nacib é um sírio que quando chamam de Turco diz que é a mãe de quem chamou. Tem um bar, o Vesúvio. Perdeu a cozinheira. Uma retirante, Gabriela, é contratada. Cama e mesa. Vira a cabeça de um mundão de gente".

Obras completas de Dalton Trevisan: "Bala de limão azedinho. Nelsinho vagando pelas ruas de Curitiba. Velhos e velhas desgracidos. Tim McCoy. Corruíra no jardim. Ai!"

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