Ivan Lessa: Torcer é viver, viver é torcer

Vem cá, vamos ser francos. A gente não entende nada de coisa alguma.

BBC Brasil |

Segundo o nobelizado José Saramago, com toda essa história de internet e blog (olha que ele teve um e vai publicar seleta) nós estamos todos escrevendo pior. Não se excluiu, o bom Saramago. É honesto.

Gay Talese, de malas prontas para a Flip 2009, deu entrevista que resultou em pelo menos uma frase citável: "A internet é o fast-food da informação".

Já que não fazemos parte dos noticiários nacionais ou internacionais, recomenda-se uma posição semelhante à do nosso presidente Lula da Silva: ser pragmático, conforme já se apontou.

Em meio às recentes e turbulentas eleições presidenciais no Irã, Lula descartou a hipótese de fraude, não viu mortes nos distúrbios e apelou para uma delícia de analogia distribuindo apodos de "flamenguistas e vascaínos" para os eleitores iranianos além de dizer que desconhece quem tenha discordado dos resultados esmagadores para a "situação".

Foi pragmático. E como foi pragmático. De um avassalador pragmatismo.

(Consta, aliás, que, em 2007, no nordeste do Brasil, o pragmatismo tenha sido totalmente erradicado entre as crianças com menos de 10 anos.)
Eu, que sou botafoguense, torço pela recontagem, o empate e o mínimo possível de gente morta pelas ruas de Teerã.

Torço ainda: para que o britânico Andy Murray não chegue às finais de Wmbldn (pronúncia correta). Para que o Johnny Depp não ganhe jamais um Oscar. Para que faça sol em Lisboa mês que vem. Para que Obama prossiga matando mosca no tapa.

Em matéria de política local (local daqui) eu torço pelo Simon Jenkins.

Ninguém sabe nada, disso sabemos. Lê-se jornal, como quer o Saramago, para torcermos melhor. O equivalente a se sentar na arquibancada, fazer um chapéu com o papel do jornal para se proteger do sol (os ingleses vivem pegando insolação) e torcer. Na ausência de Flamengo e Vasco, torcer pelo time que o Simon Jenkins torce. Torce e explica porque torce.

Simon Jenkins é um jornalista polivalente, tendendo à esquerda, como manda o figurino, e que colabora com uma coluna regular para o The Guardian. Como estou há mais de 30 anos aqui e não sei o que achar de nada, procuro saber o que o Simon Jenkins acha para aí então achar junto com ele. Não é assim no mundo inteiro? É. Sejamos francos. Ao menos.

Ainda agorinha, quando mais um inquérito sobre o que levou o Reino Unido a se meter nessa aventura iraquiana está prestes a dar seus primeiros vagidos no Parlamento (o Simon Jenkins acha que se trata de um bando de corruptos necessitados de uma reforma urgente; eu também; eu também acho, digo), ele, numa coluna vai bordando o que eu, nas próximas linhas, tentarei costurar â¿ e mal costurar. Atenção é o terceiro mais do desnecessário inquérito.

Foi uma tremenda de uma burrice mandar as tropas para o Iraque. Erro do tamanho de um bonde. Ou de um baita tanque. A aventura iraquiana. Inquérito a respeito? Erro. Tudo errado. Inquérito errado. Presidente da comissão errado. Guerra errada.

Esquece essa guerra no Iraque. Contra o Iraque, para ser preciso. A guerra que merece uma conferida legal, pra valer, é a outra. Aquela logo ali adiante. A guerra no Afeganistão. Dia sim, dia não, morre um pobre de um soldadinho britânico lá. Por quê? Para quê? Hem?
Os jornais, tíbios, noticiam com pudicícia indevida. Sobre a papagaiada mortífera no Iraque há toda uma estante de livros. Autores dos mais variados pesos, como quer e aprecia o nobre Saramago.

Simons Jenkins enumera: Bob Woodward, Seymour Hersh, Salam Pax, Hilary Synnott, Rory Stewart, John Kampfner, Geoff Simmons, William Shawcross â¿ e chega, que não só estou impressionado como também convencido. Ele dá o nome de mais uns dez e ao luxo de acrescentar "e muitos outros".

Viva o Simon Jenkins!
Simon Jenkins menciona a conhecida "subserviência de Tony Blair a Washington e sua adoração por George Bush". Toca nas notórias e inexistentes "armas de destruição em massa". Destrincha bonitinho a aventura neoconservadora cristã.

Eu acompanhando como um americano a quadra de uma das duas irmãs Williams (Venus e Serena): "Boa! Isso aí! Manda brasa! É ferro na boneca!" (Eu também torço por aquela época em que não se berrava em Wmbldn.)
Sou pragmático como um presidente da república do Brasil: o que o Simon Jenkins achar, eu acho e assino embaixo. Sempre cuidando de evitar, na medida do possível, o plágio.

A verdade está aí dando sopa. É só procurar direitinho. Daí então torcer por ela. Sem bandeira, sem escândalo, por favor.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG