Ivan Lessa: Romances gráficos

Há certas regras básicas. Lembro-me, frequentador de cinema desde guri, que alguém disse, ou escreveu, há muito tempo, que os bons livros dão em maus filmes e os maus livros em bom filmes.

BBC Brasil |

Não tem por onde.

Onde está a versão cinematográfica decente de "O Grande Gatsby", do Fitzgerald? Inaceitáveis tanto a com o Alan Ladd quanto a com o Robert Redford.

Por outro lado, alguém escreveu algum romance intitulado "Cidadão Kane"? Ou "O Encouraçado Potemkin"? Que eu saiba, não.

Tenho a certeza de que algum cinéfilo exaltado me apontaria, ou apontará, rápido como Shane sacando o revólver, vários exemplos. A começar por Jack Schaefer, que escreveu o livro no qual George Stevens se baseou para seu filme já clássico.

Mas Jack Schaefer não vale. Ele só escrevia livros de faroeste e, convenhamos, não chega aos pés de Dostoiévsqui (alguém aí na distinta plateia viu "Os Irmãos Karamazov" com o Yul Brynner? Não era brincadeira gente. Fogo. Ou ainda, para continuar pela Rússia, "Guerra e Paz"? Minha Nossa.)
Agora, há por aí este fenômeno curioso do "romance gráfico". A princípio bolação do grande Will Eisner, que escrevia e desenhava a história em quadrinhos "O Espírito", e, hoje em dia, Frank Miller, popularizado e à beira de uma nobelização, segundo seus admiradores.

Por coincidência, Frank Miller escreveu o roteiro e dirigiu o filme baseado na criação de Will Eisner. Tenho certeza que queria homenagear. Apenas empanou a memória daquele a quem ele seguramente acredita ser seu mestre e guia espiritual criativo.

Deveria continuar fazendo seus romances gráficos que são agradáveis de se passar os olhos e logo esquecer.

Não há novidade, aliás, em romancear ficção em quadrinhos. Inclusive nós mesmos com romances nossos mesmos.

Lembro de algumas edições lá pelos anos 50. "A Moreninha", "Iracema" e, embora não jure, "Dom Casmurro", de Machado de Assis. Não eram sensacionais.

Também tinham a vantagem de manter no texto, aliás sempre excessivo, um português claro e fiel, até onde possível, ao autor original.

Isso fazia, em meu entender, levar quem os lia a dar uma chegadinha que fosse ao original, sem ilustrações. No que meus professores discordavam calorosamente. Não sei quem tinha razão. Hoje, lamento tanto os professores que passaram quanto os gibis nunca reedidtados.

Tudo isso porque eu li a resenha de um romance gráfico lançado há pouco, aqui no Reino Unido, sobre a vida do cantor Johnny Cash.

O resenhista não chegava a dar um pau, mas levantava a questão de que o esplêndido intérprete já estava mais que divulgado em filmes (valeu Oscar de melhor ator para Joaquin Phoenix e melhor atriz para Reese Witherspoon,), DVDs, documentários e até mesmo uma versão mais simplificada, e mais barata, da vida conturbada de Cash, com ênfase em suas convicções religiosas.

Portanto, qual a contribuição, qual a novidade no romance gráfico sobre o "homem de preto", como era conhecido? Nenhuma. Novidade mesmo apenas o fato de ser mais um romance gráfico.

Encerrando, informo que os ingleses andam homenageando, neste final de ano, nosso grande sociólogo, antropólogo e escritor Gilberto Freyre, o autor de "Casa Grande e Senzala". O homem merece.

Encucado, fui conferir se eu ainda tinha a obra seminal em dois volumes, que lera há séculos. Lá estava direitinho na estante, em sua encadernação velhusca. Passei os olhos e dei uma boa cheirada (Ah, o olor pungente dos velhos livros!). O que me acendeu uma luzinha lá dentro.

Eu jurava que tinha também uma versão em quadrinhos. Batata. Estava ao lado de outras "quadranizações". Edição de 1981, adaptação e ilustrações do professor Estêvão Pinto, edição Brasil-América, do Adolfo Aizen, introdutor, nos anos 30, do "Suplemento Juvenil" no Brasil (Tarzan, Flash Gordon, Jim das Selvas), e, nos anos 40, alguns de nossos primeiros gibis: "Mirim", "Lobinho" "O Herói". Herói era o bom Aizen. Passei algum tempo folheando
Já "O Livro de Gênesis", segundo o genial Robert Crumb, que levou quatro anos em sua feitura, fico esperando acabar a greve dos correios para comprar pela Internet. Crumb e a Bíblia, ao contrário de versões de Batman e de Johnny Cash, não podem falhar.

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