Ivan Lessa: Recordar é (mais ou menos) viver

Gordon Bell. Esse o nome da figurinha difícil.

BBC Brasil |

Americano e aposentado. Profissão? Cientista cibernético. Está com 75 anos. Pretende continuar aniversariando o máximo possível. Nesse passo e dia após dia.

Ao pendurar as chuteiras informáticas, viu-se Gordon Bell diante de um problema. O mesmo enfrentado por todos os aposentados. Com uma razoável quantidade de dinheiro posta de lado, mais a pensão e os benefícios sociais, Gordon Bell tinha que encontrar uma maneira de fazer passar o tempo, para que este não passasse por sobre ele.

Claro que, homem previdente, há alguns anos Bell já traçara seus planos. Entrou num acordo com a Microsoft que se dispôs a bancar as horas de lazer de Gordon Bell. Horas de lazer é eufemismo. O homem não para de trabalhar. Trabalha muito mais do que quando batia ponto de segunda a sexta. Gordon Bell, em sua aposentadoria, começou a armazenar num computador dos bons todas suas memórias, boas e más, quero crer. Proust teve sua madeleine, Gordon Bell um computador.

Não se sabe se o resultado final do projeto do informatizado memorialista terá a mesma qualidade literária do renomado romancista francês. Principalmente porque Gordon Bell não está fazendo nem está interessado em fazer ficção. Ele se bustifica, ou melhor ainda, se monumentaliza, usando apenas de suas lembranças e de tudo mais que lhe venha à memória, caia nas mãos ou lhe chame a atenção.

Vai tudo para o arquivo cibernético. Das lembranças de infância (primeiros brinquedos, tios favoritos, nomes de colégios, professores e colegas; enfim, deu presente na memória, arquivo nele ou nela) às trivialidades ou seriedades de sua vida, que já podemos dizer longa e desejar duração ainda maior.

Tudo é computadorizado por Bell. Ontem e anteontem, hoje mesmo, agora, neste preciso instante, alguma coisa acaba de ganhar imortalidade no computador do personagem que só não é personagem de conto de Jorge Luís Borges por uma questão de tecnologia. Borges trabalhava com outras armas.

A coisa vai ainda mais longe. Gordon Bell, simultaneamente e ciberneticamente, se auto-documentariza. Uma pequena câmera em torno de seu pescoço registra - para mim, para você, para a Microsoft e a posteridade - cada passo, parada ou (pouco provável) bobeada do ocupadíssimo aposentado. Simultaneamente, um microgravador, também inseparavelmente ligado ao homem, vai imortalizando todo e qualquer papo.

Futricos e inanidades são registrados com igual candor. Uma coisa não ficou claro. Ao menos para mim, que mal consigo me concentrar no momento que se desenrola agora mesmo. Não sei dizer se haverá ou não um critério para a "computadorização gordonbelliana" toda. Critério ou censura, como quiserem.

Outra coisinha importante: quando nosso amigo bater as botas (ele tem idade para conhecer, mesmo em inglês, a expressão equivalente) que será feito de - se assim podemos chamá-la - sua vida? Ao menos, vida de cientista aposentado. Tem mais: dá para confiar em suas lembranças? Olha que a vida, que o passado, tudo isso, são tremendamente enganadores. Outro dia mesmo não houve jeito de eu me lembrar de todos os sete magníficos homens de ouro, aqueles do famoso filme de John Sturges, Sete Homens e Um Destino.

Mesmo assim, desejo sorte, bom proveito e longa vida a Gordon Bell. Ele pode não estar vivendo a mais interessante das vidas, mas, ao menos, para os outros, virou nota mais para o interessante do que desinteressante.

(Em tempo: todo mundo embatuca na hora de enumerar os sete magníficos homens de ouro. Cinéfilo afiado te dá de bate-pronto seis deles: Yul Brynner, Steve McQueen, Robert Vaughn, Charles Bronson, James Coburn e Horst Buchholz. Fica faltando um, o Brad Dexter, que foi chapa de Frank Sinatra e casado com Peggy Lee. Tive de ir aos alfarrábios. E sim, não é preciso me chamar a atenção: minha vida também não é fascinante.)

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG